As Marias

As opostas

Os nomes, iguais: Maria. Uma preta, a outra branca. Ainda me causa curiosidade a beligerância mas, lá no fundo, agora que parei para esmiuçar esta estória, acho que sei a explicação.

Moraram, vizinhas, no alto do morro. Para subir ou descer, não tinha jeito: trilhariam o mesmo caminho, se cruzariam, passariam uma na porta da outra. Pois é, ainda suas casas estavam bem de frente àquele caminho que todos precisavam usar para ir de suas casas à rua e vice-versa.

E não se topavam.

Rivalidade

A Maria branca era chamada de “Maria Loura”. Ela não gostava de seus cabelos ruivos e adotou, para o resto de sua vida, a pintura loura. Sei mais dela. A Maria preta era chamada assim mesmo: Maria Preta. Tudo que sei dela me foi contado pela Maria Loura e pelo seu marido, o Zé.

Maria Loura era brava. Se orgulhava de mostrar coragem e disposição. Dizia que “não levava desaforo pra casa”. Saía no braço com quem quer que a enfrentasse, mulher ou homem. Não estava nem aí se ia apanhar ou bater. O sangue lhe fervia e ela partia para o confronto físico. Não parava pra pensar.

Perguntado, Zé contou que, um dia, quando Maria Loura passava em frente à casa de Maria Preta ouviu, dessa, uma indireta ofensiva. Ah, ali mesmo começou o bate-boca.

  • Sua isso!
  • Sua aquilo!
  • Quer ver como te dou na sua cara?
  • Vem dar se tu for mulher!

E nesse crescendo de desacatos, as duas se atracaram. O caminho, um declive de escadas irregulares e tortuosas, viu as duas rolarem morro abaixo. Nalgum ponto plano, já com a vizinhança chocada, a Maria Loura achou, não se sabe onde, um pedaço de ferro com o qual acertou um golpe na Maria Preta. Felizmente, neste momento, alguém interviu e separou as duas, antes que fosse tarde e uma tragédia maior acontecesse.

Foi todo mundo parar na delegacia. O Zé teve que se responsabilizar pela Maria Loura, senão ela teria de ficar detida.

Razões

Maria Loura era ciumenta. Não deixava barato qualquer manifestação do Zé em relação a outras mulheres. Dizia logo que ele estava de caso.

Inexplicavelmente ela era racista. Sempre contou que sua mãe era negra e, no entanto, era intolerante com outras pessoas negras. Quando queria ofender, falava da cor da pele, desmerecendo a outra.

Maria Preta desapareceu. Infelizmente não há registro de sua versão dessa estória. Apenas podemos deduzir que, desafiada e ofendida, também não fugiu à luta nem deu as costas à ofensora. Certamente também bateu na Maria Loura, deixou sua marca.

Esta é uma história de ficção. Eventos e personagens não são reais. Sua semelhança com qualquer fato ou pessoa é apenas coincidência. ↩

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