Pérola e Moinho

Pérola era nascente: jovem mãe, artista de gestos leves, acostumada a equilibrar sonhos e contas como quem dança sobre uma linha fina.

Moinho era tardio: homem solteiro, mais que sexagenário, com a prata do tempo nos cabelos e um coração que, contra as estatísticas, ainda insistia em girar.

Encontraram-se no labirinto luminoso de um aplicativo ̶ essa praça sem chão onde as pessoas se trombam por acaso e, às vezes, por destino.

Nos primeiros encontros, havia clareza: ela aceitava a ajuda financeira, ele a companhia que lhe aquecia as horas vazias. A troca era dita, sem disfarces; a vida, às vezes, pede pragmatismo.

Mas o coração, desobediente, abriu fenda.

Primeiro, Moinho se deteve no olhar dela nas fotografias ̶ delicado, expressivo, um brilho que parecia dizer mais do que mostrava.

Depois, quando a viu em movimento, entendeu que a beleza também mora na firmeza: músculos bem definidos, magreza de bailarina, feminilidade inteira e mansa. E ali, quase sem perceber, apaixonou-se.

Pérola, porém, era dona da própria fortaleza.

Independência não lhe era apenas gosto: era método de sobrevivência. Resistia aos apelos do romance, sobretudo quando do outro lado havia um homem de outra faixa etária. Guardava distância, regulava o afeto, punha freios onde a vida tentava acelerar.

Moinho, ao contrário, via o sentimento transbordar.

Não sabia explicar por que aquela paixão lhe brotava pelos poros ̶ e aparecia quando ele escovava os dentes, quando lia as manchetes, quando apagava a luz. À noite, a insônia lhe dava o mesmo recado: “é ela”.

Numa dessas madrugadas, o sonho veio com a nitidez das coisas antigas.

Ele se viu moço, subindo num ônibus. À frente, uma jovem acabava de pagar a passagem; a roleta ̶ essa pequena fronteira ̶ girou, e os olhos deles se encontraram. Câmera lenta. Encanto mútuo. Mas o rapaz, tímido, não disse nada. O destino desceu na próxima parada e nunca mais voltou.

Essa lembrança, que doía como cicatriz no tempo, voltou agora com outro rosto. No sonho, era Pérola quem atravessava a roleta e olhava para ele. O instante suspenso, outra vez. Só que, dessa vez, Moinho erguia a mão e dizia “vem”. Não havia moedas, não havia contratos  ̶ havia oferta simples de amor. E nela, aceitação.

Ao despertar, Moinho entendeu que os sonhos devolvem ao coração o que a vida negou  ̶ mas não sustentam o dia. A claridade é implacável: Pérola não se apaixonara. Não por maldade, mas por fidelidade a si.

E foi nesse ponto que um pensamento de Nietzsche pousou como pedra de rio: “Quem olha por muito tempo para um abismo, o abismo olha de volta.”

Pérola, então, se fez abismo ̶ não porque engolisse, mas porque devolvia. O silêncio e a reserva dela refletiam a solidão dele, como espelho que só sabe dizer: “aqui não”.

Moinho compreendeu: insistir seria viver pendurado num precipício. Reprimir  ̶ fingir que não sente  ̶ apenas empurraria a paixão para as catacumbas, onde tudo volta em sombras. A saída não era negar; era transmutar.

Decidiu desapaixonar.

Não como quem tranca uma porta com força, mas como quem a fecha com cuidado e olha pelas janelas.

Transformaria a urgência em lembrança, a ferida em palavra, o impulso em caminho. Escrever, caminhar, ouvir velhas canções, abrir espaço para outras conversas  ̶ deixar que o vento das velas encontrasse paisagens novas. O moinho não existe para parar: existe para girar.

E Pérola?

Talvez notasse o intervalo entre as mensagens e se perguntasse pelo súbito recato. Talvez lhe fosse conveniente que o desejo dele persistisse ̶ a realidade tem boletos. Talvez um leve ressentimento surgisse diante da retração.

Mas é possível, também, que sentisse o eco. Porque até quem não ama percebe a ausência de ser amado. O afeto recebido, ainda que não correspondido, deixa marcas  ̶ sutis, quase invisíveis, mas marcas.

Se o silêncio se tornasse mútuo, seria também uma forma de processamento: cada um à sua maneira, cada qual com seu abismo.

Assim seguiram.

Ele, aprendendo a transmutar: trocar a voragem por ternura, a posse por gratidão, a fome por memória.

Ela, reafirmando fronteiras, talvez descobrindo que o cuidado com a própria liberdade carrega um preço: às vezes, o preço é o vazio depois do brilho.

Ainda assim, uma verdade ficou inteira em Moinho: o amor não vinga na mão fechada.

Quando não há reciprocidade, a dignidade é escolher o próprio chão, recolher o que é seu, cuidar do que permanece. A paixão, tratada com delicadeza, pode virar poesia  ̶ e a poesia, como se sabe, é uma forma adulta de esperança.

No fim, Nietzsche não era sentença, mas aviso.

O abismo olhou de volta, e Moinho não tombou: devolveu ao abismo um gesto de lucidez. Não barganhou, não suplicou ao impossível. Apenas girou, outra vez, com o vento que soprava leve, mas poderoso.

E, entre eles, ficou suspenso o que o sonho lhe dera por uma noite: o instante em que tudo poderia ter sido só amor  ̶ sem cálculo, sem preço  ̶ e que, por não ter sido, precisou aprender a ser silêncio.

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