Nos tempos em que as relações cabem em telas pequenas e corações deslizam para a direita ou para a esquerda como quem folheia distraidamente uma revista, o amor também passou a ser feito de atalhos. “Vc”, “pfv”, “tmj” – e, entre um emoji e outro, a promessa de intimidade que ainda nem existe.
Foi assim que Pérola e Moinho se encontraram. O primeiro “oi” já veio acompanhado de um “meu amor”, o segundo de um “vida”. Tudo rápido, fluido, sem cerimônias. As palavras, leves como plumas, não criavam raízes: apenas pairavam no ar, sem se prender a nada. A relação cresceu com a mesma velocidade com que se abre uma mensagem de voz: imediata, sem filtros, sem pausas para o silêncio.
Quando se encontravam, eram os corpos que falavam. A cama era o único dicionário que partilhavam. Um dia, no entanto, notaram que não havia mais nada a traduzir. Estavam juntos, mas não se pertenciam. Restava-lhes apenas um léxico gasto, incapaz de sustentar o peso de um “nós”.
Maria e José, por sua vez, começaram no mesmo terreno banal. Também se chamaram “amor” na primeira semana, também trocaram frases curtas, apressadas. Mas em certo ponto, perceberam a distância que crescia entre as letras. José hesitou diante de um “vc é td p/mim”, e Maria, incomodada, perguntou: “Mas… será mesmo?”.
Decidiram conversar. Sem abreviações, sem pressa, com todas as sílabas inteiras. Descobriram que o amor não nasce da pressa, mas do cultivo. Aos poucos, cada palavra recobrava sua densidade, cada gesto seu significado. “Querida” passou a ser mais que apelido – era construção. “Amor” deixou de ser fórmula pronta para se tornar compromisso.
E assim, enquanto Pérola e Moinho se perdiam no voo raso das palavras gastas, Maria e José desciam fundo na terra, lançando raízes no silêncio, no cuidado, na paciência de quem sabe que, antes de florescer, o amor precisa aprender a escrever-se.

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