Moinho já vivera muitas histórias. Desde que encerrara o último relacionamento, em 2017, perdera o medo de se lançar em experiências inusitadas. A solidão o empurrara para um terreno curioso: mulheres jovens, entre 18 e 25 anos, conhecidas como sugar babies. Vidas frágeis, marcadas por abandonos e urgências, mas que também escondiam risos, sonhos e feridas. Com elas, Moinho aprendeu mais sobre si mesmo do que ousava admitir.
Naquela noite decidiu reunir todas ali, na sua casa. Alugou uma van e anunciou que iriam, todos juntos, a um evento místico numa Tsara Cigana.
O veículo estacionou diante do edifício, todos desceram. Uma a uma, as mulheres foram entrando. O motor ligado, as portas se fechando, o silêncio carregado de tensão. Os olhares cruzavam-se, avaliando, comparando, provocando.
Os primeiros atritos
Rafaela ajeitou a bolsa no colo e, com um sorriso contido, lançou a primeira farpa: Sempre achei graça desse seu riso fácil, Karen. Quem vive sorrindo, às vezes, esconde tristeza.
Karen, altiva, respondeu: Tristeza? Eu aprendi a rir. E você… ainda insiste em ser a escolhida? Boa sorte, querida.
Mais atrás, Chanel tentava manter a compostura, mas Jasmim não se conteve: Vocês se fazem de santinhas, mas todas estamos no mesmo barco: abrir as pernas por grana.
Chanel ergueu o queixo: Pelo menos abrimos com dignidade.
Pocahontas completou, serena: E com o coração aberto, não com língua ferina.
Jasmim riu, debochada: Ah, vão rezar na igreja, hipócritas!
Reflexões afiadas
Enquanto isso, no fundo, Luiza, Lana e Sun Flower falavam baixo.
Luiza: Às vezes penso se ele nos vê como mulheres ou mercadorias.
Lana: Somos espelhos do desejo dele. Quando servimos, brilhamos. Quando não, somos descartadas.
Sun Flower: Nem sempre. Eu vi nele afeto… mas também vi ego.
As três se entreolharam. Um silêncio cúmplice, feminista, pairou no ar.
Ironia e ressentimento
Mais adiante, a Motoqueira lançou um olhar enviesado para Mi: E você, bonequinha, o que trouxe de especial?
Mi, sem perder o salto, respondeu: Beleza, charme… e preço alto.
Motoqueira sorriu de canto: Preço alto não é sinônimo de valor.
Mi retrucou: Nem músculos inflados.
O silêncio que se seguiu pesou mais que grito.
As feridas expostas
Do outro lado, Goiabadinha não poupava veneno contra Janne: Você com essa pose de massagista zen, mas vende o corpo igual a todo mundo.
Janne, gelada: Pelo menos não me embriago em frente às câmeras.
Charlote, que ouvira calada, explodiu: Vocês não sabem o que é amar de verdade. Só sabem brincar de ser mulheres.
Goiabadinha gargalhou: Amar? Você é só drama, ciúme e ameaça.
Janne assentiu: Se Moinho tivesse juízo, nunca teria deixado você entrar.
Charlote cravou: Ele entrou. E foi comigo que sonhou construir algo. Vocês nunca chegaram perto disso.
O clima na van tornou-se sufocante.
Reconhecimentos inesperados
No banco junto à janela, Ninfetinha cochichou para Pérola: Nunca pensei que diria isso, mas admiro a forma como você o marcou.
Pérola sorriu leve: Eu não quis marcar. Só fui eu mesma.
Ninfetinha: Eu jogo, minto, engano… e ele sempre volta. Você não precisa disso.
Pérola: Porque nunca prometi nada. Ele só viu em mim o que buscava.
Ninfetinha: Talvez sejamos as únicas que o entendemos.
Pérola: Talvez. O amor não é posse. E ele aprendeu isso conosco.
A Tsara Cigana
Quando a van parou, o clima de guerra deu lugar ao assombro. O portão da Tsara Cigana se abriu e o perfume do incenso tomou conta de todos. O som de pandeiros e vozes femininas preenchia o ar. Dentro, velas tremeluzentes projetavam sombras dançantes nas paredes.
A cigana já estava incorporada e dançava em torno da fumaça do incenso, que queimava num pote de barro com brasas acesas no chão. Parecia estar esperando aquele grupo porque, quando as viu, chamou-as para perto, sinalizou para que dessem as mãos e balançassem seus corpos, no ritmo da música espanhola, ao som das castanholas, do violão.
Um arrepio percorreu Moinho naquele instante. A fumaça do incenso pareceu se intensificar e se espalhar por toda a Tsara. Todos os demais presentes, organizados ao redor daquele círculo de poderosas mulheres, batiam palmas, acompanhando aquela música hipnótica, acompanhando o esvoaçar da saia da cigana.
A cigana parou, olhou com um sorriso para cada uma das recém chegadas, segurou-lhes a mão, como que energizando-as e levantou sua voz para todos ouvirem. Falou sobre a necessidade de agradecermos por tudo que for vivido, mesmo por aquelas experiências que parecem más que, no entanto, nos ensinam tanto. Falou sobre repassarmos aos outros as lições que aprendemos, as ajudas que recebemos. Falou sobre o papel da mulher, de guiar a humanidade através dos filhos e filhas que trazem ao mundo. Sobre a obrigação do homem de se superar e ser o esteio forte que ajuda as mulheres, tanto parceira, como mãe, como filha, como cidadã. Falou sobre a importância de cuidar das crianças, dar-lhes amor mas também educação e cuidar de sua saúde. Porque o mundo será delas um dia e elas precisam estar preparadas, principalmente com o amor que lhes é dado quando pequenas.
As mulheres, antes afiadas, silenciaram. Cada uma, tocada pelo ambiente sagrado, pela mensagem forte da cigana, encontrou em si algo para dizer.
Rafaela confessou que queria mostrar à filha que a vida era mais que sobrevivência.
Karen percebeu que sua alegria não precisava depender do espumante.
Chanel se viu capaz de não esconder mais quem era.
Jasmim entregou sua fúria ao santo guerreiro.
Pocahontas descobriu que memória verdadeira nasce do afeto.
Luiza reafirmou: nenhuma mulher é mercadoria.
Lana reconheceu: sororidade é prática, não discurso.
Sun Flower entendeu: não era o corpo, mas a alma que merecia ser exposta.
Motoqueira percebeu: ainda podia escolher leveza.
Mi admitiu: não existe cifra que compre a energia do sagrado.
Goiabadinha suavizou: ser contra tudo a afastava de si mesma.
Janne sentiu: seu corpo também precisava de cuidado espiritual.
Charlote murmurou: ainda havia chance de reconstrução.
Ninfetinha confessou: podia jogar para crescer, não só para enganar.
Pérola, por fim, sorriu: a vida é arte, e ela podia dançar sem medo.
Reflexão de Moinho
Moinho observava em silêncio. Não mais como cliente, amante ou aventureiro. Olhava aquelas mulheres — tantas histórias, tantos encontros — e percebia que todas, à sua maneira, haviam deixado nele um traço indelével.
“Não foi o dinheiro que importou, nem o corpo, nem a vaidade. Foi a humanidade escondida atrás de cada olhar, cada gesto, cada raiva e cada carinho. Elas me ensinaram. Cada uma deixou em mim um fragmento de verdade: o cuidado, o riso, a fúria, o desamparo, a coragem. Eu não paguei encontros. Paguei iniciações. E o que recebi de volta foi aprendizado. Hoje vejo que não existem vadias ou santas, mas apenas seres humanos, frágeis e luminosos, buscando um pouco de luz. E eu, que pensava guiar, era o guiado.”
Ao deixar a Tsara, respirou o ar impregnado de mirra e sorriu. Pela primeira vez em muito tempo, não se sentiu dono de nada — apenas aprendiz da vida.

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