O Tempo e o Desejo

Há homens que envelhecem em silêncio,
carregando o peso dos dias como se fosse culpa.
E há outros que, aos setenta, ainda se espantam
com o perfume de uma jovem mulher,
como se o tempo fosse um rio que não seca,
apenas muda o brilho da correnteza.

Não é pecado desejar.
O desejo é o testemunho de que a alma ainda mora no corpo.
Quando um homem maduro se aproxima da juventude,
não é sempre por vaidade – às vezes é por saudade.
Saudade de si mesmo, do riso leve,
da pele que não sabia o nome das rugas,
do instante em que amar não doía.

Ele não busca apenas o corpo novo,
mas a lembrança da vida que ainda pulsa.
Busca o espelho onde possa ver o menino
que um dia acreditou ser eterno.

Há quem o julgue – sempre haverá.
Mas o julgamento é coisa de quem teme o espelho.
O que há, no fundo, é a necessidade humana
de tocar o que permanece vivo.
E a juventude, quando se oferece em liberdade,
é uma das formas mais puras dessa vida.

O erro não está no querer,
mas em não perceber por que se quer.
Se é fuga do próprio tempo, nasce o vazio.
Se é celebração da existência, nasce o amor,
ainda que efêmero, ainda que breve.

Porque a alma não tem idade.
E o corpo – ah, o corpo é apenas o instrumento
pelo qual ela ainda canta.

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