Sem ilusões, mas com esperança

I. O desencanto e a lucidez

Naquele grupo de mensagens, uma conversa começou como tantas outras: um desabafo sobre o país. Rafael, homem de verbo firme e olhar cético, disparou:

“Sem ilusões… são todos bandidos. Do PT ao PL. Se não fossem, o Brasil não teria congressos com orçamentos de reinos, nem vereadores do Rio com mais verba que Nova York. O roubo é legalizado. É sistêmico. São quadrilhas, não partidos.”

Era a voz da indignação madura, a de quem já viveu promessas e traições. Mas também era, sem que ele percebesse, a voz de uma ferida coletiva: a do cidadão que ama o país, mas já não sabe onde depositar a fé. O diagnóstico era exato; o remédio, ausente. Porque a lucidez, quando perde a esperança, torna-se deserto.

II. A resposta do amigo

Miguel, que o conhecia bem, respondeu com calma — não com argumentos, mas com afeto e lógica moral:

“Admiro a clareza e a paixão com que defende suas convicções. Sua análise é cirúrgica ao diagnosticar a metástase do sistema. Mas será que a conclusão de que ‘todos são bandidos’ não é, ironicamente, a própria armadilha que o sistema quer que a gente caia? O cinismo paralisa e beneficia quem está no poder. É a desistência em forma de filosofia.”

E continuou, num tom que misturava ternura e firmeza:

“O pulo do gato está no humano, não no sistema. Você, como pai amoroso, não é corrupto. O professor que se doa, o médico que salva, o vizinho que devolve uma carteira — não são. A maioria das pessoas é decente. O problema é que a lógica da quadrilha sequestra as instituições que deveriam servir a essas pessoas. Se a gente acredita que todos são iguais, paramos de exigir, de votar com critério, de participar, de educar. A mudança virá do acúmulo de milhões de gestos decentes.”

Era um apelo à fé civilizadora: acreditar no humano como antídoto do cinismo.

III. A voz da esperança

Marcela, amiga comum, entrou em cena como a brisa que equilibra o fogo:

“Você disse exatamente o que eu gostaria de dizer, Miguel. E, Rafael, não desanime! A gente precisa seguir tentando.”

Foi o toque de leveza que selou o diálogo. Entre a crítica e a esperança, ela lembrou que há uma terceira força que sustenta o mundo: a amizade.

IV. A trincheira e o bambu

Rafael respondeu:

“Sigo na luta e na trincheira, meu amigo. Mas não me iludo com as quadrilhas. Prefiro seguir livre, sem rótulos. Enquanto houver bambu, há flecha. Não defendo esquerda ou direita, defendo o humano.”

E Miguel o apoiou com generosidade:

“É exatamente isso! A luta na trincheira do dia a dia é o que realmente importa. É a liberdade de criticar sem ódio e agir com coerência. Seguimos construindo juntos, cada um com sua perspectiva, mas com o mesmo amor por um país melhor.”

A conversa poderia ter terminado ali — em nobre empate entre lucidez e ternura. Mas Rafael, ainda inquieto, o procurou em privado.

V. O desabafo final

“O lulopetismo assaltou fundos de pensão, e o bolsonarismo seguiu nos roubando. Eles preferem roubar aposentados, crianças, doentes — quem não pode reagir. Difícil é roubar quem tem poder. Não é cinismo, é pragmatismo. Mas isso, meu amigo, são apenas formas de ver o mundo. Sigo atento e na luta, mesmo aqui em Bled!”

E, junto da mensagem, veio uma foto: um lago azul, um castelo ao fundo, montanhas nevadas — um postal de paz em contraste com a guerra interior de quem ainda ama a pátria.

VI. O gesto que encerra

Miguel respondeu com brandura:

“Entendi perfeitamente seu ponto de vista. O importante é que seguimos na luta pelas causas que acreditamos, cada um do seu jeito. E que lugar incrível é esse da foto? Aproveite o descanso merecido, meu amigo. Nos vemos no fim do ano.”

E, com isso, encerrou o debate sem perder a amizade — um gesto raro de sabedoria emocional. Porque há momentos em que a melhor resposta não é o argumento, mas o cuidado. O diálogo não termina porque se chegou a uma conclusão, mas porque o afeto prevaleceu sobre a retórica.

VII. O espelho de Bled

A imagem de Rafael diante do lago é simbólica: um homem cético, contemplando a serenidade das águas. Talvez, sem perceber, ele via ali o reflexo de um Brasil interior — turbulento, belo, contraditório. Um país de paisagens grandiosas e feridas profundas. E, dentro de cada cidadão, o mesmo espelho: a tensão entre indignação e esperança.

VIII. Epílogo – A esperança lúcida

A conversa dos três não foi apenas um debate político. Foi um retrato do que ainda pode nos salvar: o encontro entre lucidez, empatia e amizade. Ninguém convenceu ninguém, mas todos se escutaram. E isso, hoje, já é uma revolução.

“A lucidez sem amor é deserto;
a esperança sem lucidez é delírio.
Mas quando as duas caminham juntas,
nasce o futuro.”

FIM

(Todos os nomes e locais foram modificados para preservar a privacidade dos envolvidos.)

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