Era uma noite silenciosa no planeta Rossem. As auroras metálicas riscavam o céu como véus de uma auréola distante. O Primeiro Orador, em meditação profunda, observava o tecido da psico-história pulsar diante de si – equações mentais flutuando como constelações de pensamento.
Em outro ponto do espaço-tempo – Paris, 1868 – uma pena deslizava sobre o papel nas mãos do médium Armand Desliens. As luzes a gás tremeluziam, e um nome surgia na caligrafia fina e firme: Pierre-Paul Didier.
Mas algo fugia à rotina daquela sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. O médium, subitamente, sentiu um frio de estrela distante. As letras no papel começaram a se alterar – não por influência dos mortos, mas por uma força mental que vinha… de muito além.
- Quem ousa projetar-se até o círculo mental da Segunda Fundação? – perguntou o Primeiro Orador, mentalmente.
- Sou Pierre-Paul Didier, um espírito em busca de diálogo, foi a resposta, em voz etérea ressoando como música em água. Venho da Terra, século XIX. Busco compreender a ciência que julga o destino das almas.
O Primeiro Orador silenciou por um instante. Não havia alma em suas equações – apenas probabilidades, tendências, vastas estatísticas humanas.
- A alma é uma hipótese improvável, senhor Didier. Nós trabalhamos com certezas matemáticas. A humanidade, em escala galáctica, é previsível. O indivíduo é ruído; o coletivo, a melodia.
- E o amor, senhor Orador? – replicou Didier com serenidade. O amor não se curva à estatística. Ele é a variável que resiste, o sopro que desvia o cálculo.
O Primeiro Orador analisou a frase com atenção. Em outra mente, ele teria reordenado sinapses para suprimir a dúvida. Mas a consciência daquele espírito não tinha um cérebro a manipular. Era uma mente livre – e, de certo modo, incomputável.
- Amor é um vetor de comportamento. Pode ser previsto, condicionado e utilizado.
- Mas nunca aprisionado.
O vento soprou em Rossem – e, curiosamente, também nas cortinas da sala de Kardec, em Paris. Era como se ambos os mundos partilhassem o mesmo fôlego.
- Nós orientamos as almas humanas, disse Didier. Não para dominá-las, mas para ajudá-las a se reconhecerem como centelhas de um todo. O livre-arbítrio é o laboratório da alma.
- E nós orientamos civilizações inteiras para evitar a barbárie. O livre-arbítrio coletivo precisa de um norteador. Nosso dever é garantir a sobrevivência da espécie.
- Mas a sobrevivência sem moral é apenas adiamento da queda.
- E a moral sem razão é apenas sonho inútil.
Por um instante, ambos ficaram em silêncio. No vazio entre as galáxias e a penumbra de uma sala parisiense, a mente do Orador e o espírito de Didier compreenderam algo: falavam da mesma coisa com linguagens diferentes. Um buscava o equilíbrio pela mente; o outro, pelo coração.
Epílogo
O espírito Didier dirigiu-se ao leitor, através da pena do médium:
“Creio que o progresso do espírito humano não está em suprimir a dúvida pela estatística, mas em alargar o entendimento pela compaixão. A verdadeira ciência do futuro será a que unir a razão à consciência, sem dominá-la. Que a luz do amor se torne método e não milagre.”
Em Rossem, o Primeiro Orador concluiu sua meditação e registrou em seu diário mental:
“Mesmo o mais perfeito cálculo depende da presunção de que o universo é inteligível. Talvez essa suposição seja, em si, um ato de espiritualidade. Admito que o espírito, ainda que invisível à fórmula, possa ser o campo quântico da esperança.”
E, assim, entre o compasso dos números e o canto das almas, a psico-história e o espiritismo se tocaram – por um instante – como duas asas da mesma ideia: a busca humana por sentido no infinito.
Nota do autor
Obra de ficção sem fins lucrativos, inspirada nos universos de Isaac Asimov e Allan Kardec. Os personagens e conceitos originais são aqui reinterpretados em homenagem literária, sem pretensão comercial, como diálogo simbólico entre ciência e espiritualidade.

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