Costureiro ou Alfaiate?

Zeca Rios varria o chão como quem reza, riscando a calçada de Vila Isabel com o compasso antigo da vassoura. O ferro ondulado da porta ainda ressoava no ouvido, a poeira subia em arabescos, e ele murmurava um rosário profano que só ele entendia.

— Povo folgado… — rosnou, empurrando uma guimba para o bueiro. — Cabeludo de novo com esse saco rasgado… Quem limpa? Zeca limpa. Quem leva bronca da dona da Internet que cai? Zeca. É isso.

A rua respondia com seus ritos: ronco de kombi ao longe, pássaros no fio elétrico e o rádio escondido no fundo da loja, sintonizado no que desse, porque era assim que as coisas eram: “o que desse”. Dona Ronilda já estendia o pano no chão com suas quinquilharias de vida passada; ‘seu’ Antônio, a dez passos, inclinava-se sobre uma panela com a gravidade dos monges. Dos postes, pendiam fios como trepadeiras mortas; alguns, arrancados de noite, voltavam de dia com remendos recentes. Entre um dente e outro da calçada, brotavam os pequenos dramas.

— Ô, Zeca! — latiu uma voz habituada ao asfalto.

Era o Cabeludo, carregando um saco de latinhas. Vinha com o andar inclinado de quem conversa com o chão.

— Teu lixo voou tudo pro meu lado — disparou Zeca, parando a vassoura no ar. — Eu varro, você espalha. Tá de sacanagem?

— Não foi eu, não. Foi o vento da madrugada.

— O vento tem nome de gente agora? — Zeca fechou o cenho. — Se o vento se chama Cabeludo, beleza, eu converso com ele.

— Fica na tua, Zeca. Essa rua não tem dono.

— Tem sim: tem quem varre.

Cabeludo ergueu o queixo, mostrando dentes gastos, e sorriu de lado.

— E tem quem vive. Varrer não é viver.

— Viver é não transformar a calçada em curral — Zeca rebateu, o olho faiscando. — Viver é tomar cuidado com o que é de todos.

O rádio no fundo deu um chiado, quase um riso. Por um instante, os dois se miraram: o alfaiate que não consertava mochilas, o andarilho que remendava dias com latas.

— Quer saber? — Zeca cuspiu ao lado, não por nojo, por pontuação. — Junta isso aí. E sem gracinha. Antes que eu te dê um corretivo.

— Você não me assusta, não — respondeu o Cabeludo, mas a mão já recolhia as latinhas. — Só me cansa.

— A mim também — disse Zeca, numa súbita mansidão que surpreendeu os dois. — A mim também.

Dentro, o ateliê parecia um barco apertado. As máquinas, como motores antigos; os rolos de linha, faróis. Um cartaz na parede, escrito em caneta grossa: NÃO CONSERTO MOCHILA. NÃO CONSERTO MEIA. NÃO REMENDO LENÇOL. NÃO CONFECCIONO. Ao lado, uma calça com a etiqueta de outros tempos: Zeca Rios — alfaiataria de homem, o dourado meio descascado, mas brilhoso o suficiente para bater no olho.
Nádia chegou na porta com perfume de rua e sol de meia-tarde. Trazia um olhar que abria sorriso nas coisas, e Zeca sabia disso — e a rua inteira também. Ficara por muito tempo como sentinela ali, vigiando as curvas do mundo que faziam curvas no homem que amava.

— Varreu a esquina toda, capitão do asfalto? — ela provocou.

— Desde o Maracanã até o Bar do Ogum — ele respondeu, guardando a vassoura atrás do balcão. — Hoje eu tô varredor geral.

— Varre pra fora essa cara de onça — Nádia entrou, encostando os dedos na gola da camisa dele, ajeitando como quem afina instrumento. — E vem aqui. Eu trouxe assunto melhor que lixo e fio roubado.

— É mesmo? — Zeca piscou, deixando que a mão de Nádia deslizasse pela lapela. — Ateliê tá fechado pro expediente.

— Fechado pro resto do mundo — ela sorriu — e aberto pra gente.

No corredor estreito, atrás da porta discreta, a respiração deles sempre descobria um ritmo. Nádia falava com língua que sabia do corpo. O jeito apimentado que ela tinha não era vulgaridade — era fome de viver, sem pedir licença. Zeca, no sussurro, se permitia ser menos rocha e mais água.

— O que você vê em mim, Zeca? — ela perguntou um dia, com o rosto colado ao dele, a luz atravessando as ripas.

— Viso de costura — ele respondeu, sério. — Você me ajuda a ver por dentro.

— E você me veste o pensamento — ela riu, num arrepio que subiu pelos braços. — Faz bainha no meu medo e ajuste no meu desejo.

— A gente se aprende. Devagar — disse ele, e tampou a boca dela com um beijo breve, só pra adiar a resposta completa.

Mas a vida tem facas guardadas nas dobras. Nas tardes de ócio, a esquina inventava venenos. O ciúme é um alfaiate que mede errado: qualquer gesto vira roupa apertada.

— Não encosta no balcão do Zeca com esse sorriso, não — Nádia disparou certa manhã, ao ver uma passagem qualquer demorar mais que o necessário. — Aqui tem dona.

— Dona é só no cartório — retrucou dona Ana, do boteco, que viu tudo do outro lado e não gostou do tom. — Aqui, minha filha, todo mundo compra cerveja do mesmo jeito: pagando.

— Eu pago no olhar e ele dá no troco — respondeu Nádia, ferina.

— Abaixa a crista, menina — veio a voz grave de dona Ana, atravessando a rua com a autoridade dos que varrem cedo e fecham tarde. — O balcão é meu, as garrafas são minhas. Lá do outro lado, a paciência também tá cara.

— Paciência eu não peço fiado — Nádia apertou os punhos. — E se alguém me faltar com respeito, não fica barato, não.

— Respeito começa por casa — Ana bateu no próprio peito, o avental marcado de gelo e espuma. — E por falar em casa: para de plantão de ciúme na porta dele. Homem nenhum melhora com cerca, só pula mais alto.

Nádia riu curto, um brilho perigoso no olho.

— Quem pula mais alto sou eu, quando quero. E ninguém me manda recuar.

Comerciante antiga, dona Ana não recuou. A rua ficou em suspenso. Zeca tentou apaziguar, mas a conversa ardia como chapa. Depois, vieram outras brigas: no laticínio, com Miguel, que pediu fila; na venda, por uma nota que não virou troco; na memória, aquelas cenas se multiplicando como manchas em tecido claro.

— Eu não sou costureiro de bagunça — Zeca disse num desses dias, a voz fazendo corte. — Sou alfaiate.

— Alfaiate que não confecciona? — Nádia feriu, sem medir.

— Alfaiate que ajusta o que a vida traz torto — ele devolveu, doído.

A palavra ficou vadiando no ar: ajusta.

De manhã, a vassoura voltava ao ritual. Zeca varria para fora e, sem querer, varria para dentro.

Sou alfaiate? — o pensamento vinha como um costado de onda. — Ou sou varredor de pequenas tragédias? Costuro o quê, se a placa diz que não conserto nada?

O Cabeludo passou de novo, silencioso. Não houve briga; houve um aceno de cabeça. Ao longe, o Bar do Ogum dormia com suas portas fechadas de dia, guardando a música para a noite. Na calçada, dona Ronilda conversava com suas porcelanas. ‘Seu’ Antônio lustrava panelas até que elas se vissem, finalmente, como espelho — e talvez aí estivesse um segredo: polir o comum até virar face.

Zeca encostou no batente, sentiu um latejo no lado direito, uma fisgada antiga acordando feito cão. Já vinha se anunciando: jantar de cachaça em copo americano, almoço de cerveja gelada, café de outro gole. O corpo é um alfaiate cego, mas aprende o contorno pelo erro.

Foi no posto de saúde que a palavra cirrose entrou na oficina como vento frio. Não veio sentença, veio susto. O médico, com uma caneta, desenhou um fígado no papel, como quem risca um molde; falou de tempo, falou de limites, falou de sentir sede e dizer não. Nádia, nessa fase, já não estava. E foi sozinho que Zeca voltou pela rua arborizada, a cabeça pesada como rolo de fazenda.

Se eu morrer agora, ele pensou, quem fecha a loja? Quem varre essa esquina? Quem diz pro Cabeludo que o vento tem nome?

No dia seguinte, a vassoura o esperou de pé. Zeca levantou a porta, respirou fundo, desligou o automático do rádio e deixou o silêncio entrar primeiro. O silêncio, descobriu, também fala; ensina a mãos a dizerem menos.

Foi até a parede. Tirou o cartaz. Rasgou? Não. Dobrou, com uma delicadeza que não usava havia anos, como se dobrasse um paletó de domingo.

Pegou a calça com a etiqueta antiga — Zeca Rios — e a pôs sobre o balcão. A luz encontrou o dourado cansado e quis brincar de novo.

— Não confeccionar não é prometer nunca — ele sussurrou para si. — É só dizer “por enquanto”.

Com um giz, rabiscou as margens do tecido. A mão lembrava: o ponto invisível que segura, o arremate que não aparece, a bainha que impede o desfiar. Não era milagre; era paciência. E a paciência, quem diria, podia ser sóbria.

Quando o Cabeludo apareceu à porta, chegou manso.

— Tô precisando ajustar uma barra — disse, como quem pede desculpas pelo vento.

Zeca mediu a barra. Olhou os pés do homem: sapatos gastos, mas alinhados.

— Sobe no banquinho — disse, num tom neutro que parecia novo. — Vamos cortar só um dedo de céu.

O rádio, agora, tocava baixinho. Dona Ana passou na calçada com uma caixa de garrafas, acenou com a cabeça, um acordo tácito de treguas. Dona Ronilda achou um brinco perdido na memória e sorriu. ‘Seu’ Antônio deu três marteladas de maestro.

Mais tarde, Nádia passou do outro lado da rua. Por um instante, hesitou. Zeca ergueu o queixo, não para desafiar, mas para reconhecer. Eles não se aproximaram; o tempo, às vezes, precisa de distância para assentar o tecido.

Quando o sol caiu enviesado, Zeca colocou um papel novo na parede. Não gritava; informava.

AJUSTES, BAINHAS, REFORMAS.
AQUI, O QUE PODE VOLTA A SERVIR.

E, no rodapé, quase uma oração:

ALFAIATE.

A vassoura ficou encostada do lado de dentro, como quem já pertence à casa. Na rua, os fios ainda pendiam, os carros ainda corriam, o vento ainda tinha nome. Mas o copo americano, esse, descansava vazio na prateleira, com a dignidade que se dá a um objeto quando ele perde o ofício e ganha memória.

Zeca apagou a luz, tarde, e saiu. Antes de descer a porta, varreu um resto de folha seca — não por mania, por cuidado. E, ao fim do rito, trouxe a mão ao fígado, num gesto quieto de quem agradece:

— Viver é ajustar — disse. — E eu aprendi o meu ponto.

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