Adeus

Moinho encontrou a carta numa manhã qualquer, dessas que começam com um café morno e uma busca distraída por papéis esquecidos. O envelope estava amarelado, mas o nome dele ainda brilhava num rosa ansioso: “Meu Amor!”

Ao tocar o papel, veio o peso de um tempo que ele tentava guardar num canto quieto da memória — como quem deixa no porão uma mala que não quer abrir, mas também não consegue jogar fora.

A letra era de Lira.

Lira, com seu coração descompassado, com sua alma de mar revolto, com seu amor que vinha sempre com ondas altas demais.

Desde o início, Lira surgira como quem busca abrigo — e encontrou em Moinho um farol. Ele a orientou quando ela ainda tateava pela vida: o curso no Centro Popular, o ensino médio interrompido, o cuidado com a pequena Clara, que vivia perdida num silêncio inquieto. Foi Moinho quem a incentivou buscar a Clínica da Família, quem insistiu que ela escutasse os médicos, quem acreditou que a esperança também se ensina.

E a cada passo dado, Lira brilhava um pouco — e logo depois, desmoronava de novo.

O romance deles tinha duas faces.


Uma era doce: parceria, risos, tardes de sol, o leve toque da mão dela no ombro dele enquanto cozinhavam.


A outra era uma sombra: crises repentinas, ciúmes que vinham como tempestade, acusações sem forma, lágrimas que escorriam por horas.

E havia os surtos — aqueles que ainda hoje arrepiam a pele de Moinho quando lhe atravessam a lembrança.


A primeira vez Lira, soluçando, se trancou no banheiro e, com a metade de uma gilete, cortara o próprio braço com a frieza de quem pede ajuda gritando por dentro.

A segunda vez, Lira correra para a varanda do terceiro andar, dizendo que o mundo ficaria melhor sem ela. Bené, a vizinha, foi chamada.


Depois, Ana Bela.


Depois, Helena, que assistia tudo com uma tristeza que nunca antes vivenciara.

Moinho, cansado de tentar ser porto para um barco que insistia em virar, procurou um psiquiatra. Ansiedade severa, disse o doutor. Frontal 0,5 mg para dormir. 0,25 mg para sobreviver.

Mas, entre uma crise e outra, Lira também tinha seus dias de calmaria. Dias em que sorria tímida e dizia que ia mudar.


Dias em que escrevia cartas como aquela — promessas de um futuro mais leve, desculpas, gratidão.

Por isso Moinho guardou o envelope.


Porque, mesmo depois de tanto, ele ainda queria acreditar na Lira da carta. Mas o tempo é sábio, mesmo quando dói.

O fim começou com ciúmes — de novo.


Uma suspeita sem fundamento, uma explosão que virou labareda. E então Moinho, já esgotado, pronunciou a frase que vinha adiando há meses:

— Chega, Lira. Assim não dá mais. Ou param as crises… ou a gente termina.

Ele sabia o que viria. Mas precisava sobreviver.

Lira desabou. Literalmente. Caiu no chão da sala e não conseguiu levantar por horas. Chorava como se o corpo fosse feito só de sal. Gemia como quem perde o próprio eixo. 

Ana Bela veio correndo. Helena segurou a mão dela. Moinho tentava respirar, sentir, ficar.

Sete horas. Sete horas de mundo suspenso.

Quando enfim Lira se levantou, os olhos eram de vidro. Enfiou algumas roupas na mochila, amarrou o cabelo com uma pressa estranha e caminhou até o elevador. Moinho a acompanhou. Não por pena — mas por respeito ao amor que um dia haviam dividido.

No corredor, antes de as portas de aço se abrirem, ela o olhou nos olhos. Um olhar triste, profundo, cheio de perguntas que nunca seriam feitas.

— Adeus.

Foi só isso. E o elevador levou Lira embora.

Agora, sentado à mesa com a carta nas mãos, Moinho entendia algo que antes não conseguia ver com clareza:

Lira não era o caos. Era o resultado de um caos maior — um que ela carregava desde antes dele, e que nenhum amor, por mais sincero, poderia curar sozinho.

E Moinho, por sua vez, não era o abandono que ela temia. Era apenas um homem tentando não se afogar enquanto segurava alguém que já estava submersa há muito tempo.

Ele fechou o envelope, respirou fundo e disse para si mesmo:

— Foi amor. Mas foi amor demais para mim, e de menos para ela se salvar. 

E, de algum modo, aquilo já era paz.

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