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Discurso, discurso, …
Eu sabia que iam fazer coro pedindo um discurso. Na verdade – você não precisa acreditar nisto, tá? – o que me aconteceu é que, num dado momento, enquanto pensava no almoço de comemoração, um pensamento veio se infiltrando no meu consciente e, de repente, pá! “Faz porque você vai precisar“. Ficou assim:
Setenta anos… alguns dizem que é a idade da sabedoria, outros dizem que é quando a gente começa a esquecer onde deixou os óculos. Eu prefiro dizer que é a idade perfeita: já tenho histórias demais para contar, mas ainda consigo lembrar das melhores! E agora, olhando à minha volta, vejo que muitas dessas histórias têm vocês como protagonistas – desde meus amigos mais letrados, capazes de debater ciência e filosofia, até aqueles irmãos de alma que conheci na adolescência, que me ensinaram que a melhor escola é a da convivência.
Hoje, não celebro apenas um número, mas uma transformação. Cada filho, cada familiar, cada amigo e cada companheiro de trabalho deixou a sua marca em mim. Algumas, suaves como uma brisa; outras, firmes como um empurrão necessário para seguir em frente. E todas, sem exceção, ajudaram a me tornar alguém melhor, mais aberto e, espero, mais útil para quem cruza o meu caminho.
Por isso, agradeço de coração a cada presença aqui. Vocês deixaram, por algumas horas, suas rotinas para estarem comigo – e isso é o maior presente que eu poderia receber. Que possamos seguir juntos, compartilhando risos, histórias e abraços.
16/08/2025.
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Como Reconhecer um Idiota
Dizem que a inteligência se mede pela rapidez do raciocínio, pelo cálculo frio, pela vitória no jogo social. Mas há quem veja mais fundo. Há quem desconfie do brilho que deslumbra e prefira medir o espírito humano pelo silêncio com que trata o outro.
O idiota, dizia em tom de brincadeira um orador, pode estar em qualquer esquina: no trabalho, nos discursos fáceis, até no trono de um país. Difícil é reconhecê-lo, pois muitas vezes veste a máscara da esperteza. E, no entanto, há um sinal inconfundível: a crueldade.
Cruel é quem nunca atravessou a ponte que leva do instinto ao coração. Quem ainda se deixa reger pelo medo do diferente, pelo julgamento automático, herdado de um tempo em que sobreviver era desconfiar. O cruel é prisioneiro da caverna de Platão: vê sombras e teme a luz.
O bondoso, ao contrário, não é fraco. Ele é um criador de caminhos dentro da própria mente. Faz de sua alma um território fértil, onde a compaixão germina contra a aridez do instinto. É ele quem, diante da estranheza do outro, escolhe o exercício mais difícil: calar o medo, abrir espaço para a empatia, deixar nascer o entendimento.
Há quem se iluda com o poder da violência, acreditando que ela é escada. Mas a história repete a lição: quem sobe pela crueldade desce pelo peso da própria sombra. Só permanece de pé aquele que, com gentileza, construiu degraus firmes de humanidade.
Assim, se quiseres saber quem é o mais sábio na sala, não olhes para o mais eloquente nem para o mais forte. Busca aquele cujo olhar é o mais terno. Porque, em segredo, ele já venceu a primeira batalha de uma sociedade verdadeiramente avançada: a de transformar o animal em ser humano.
P.S.: Baseado no discurso, como orador de formatura da turma de 2023 da Northwestern University, do governador de Illinois, J. B. Pritzker, em fevereiro de 2025.
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Palavras que pesam, palavras que voam
Nos tempos em que as relações cabem em telas pequenas e corações deslizam para a direita ou para a esquerda como quem folheia distraidamente uma revista, o amor também passou a ser feito de atalhos. “Vc”, “pfv”, “tmj” – e, entre um emoji e outro, a promessa de intimidade que ainda nem existe.
Foi assim que Pérola e Moinho se encontraram. O primeiro “oi” já veio acompanhado de um “meu amor”, o segundo de um “vida”. Tudo rápido, fluido, sem cerimônias. As palavras, leves como plumas, não criavam raízes: apenas pairavam no ar, sem se prender a nada. A relação cresceu com a mesma velocidade com que se abre uma mensagem de voz: imediata, sem filtros, sem pausas para o silêncio.
Quando se encontravam, eram os corpos que falavam. A cama era o único dicionário que partilhavam. Um dia, no entanto, notaram que não havia mais nada a traduzir. Estavam juntos, mas não se pertenciam. Restava-lhes apenas um léxico gasto, incapaz de sustentar o peso de um “nós”.Maria e José, por sua vez, começaram no mesmo terreno banal. Também se chamaram “amor” na primeira semana, também trocaram frases curtas, apressadas. Mas em certo ponto, perceberam a distância que crescia entre as letras. José hesitou diante de um “vc é td p/mim”, e Maria, incomodada, perguntou: “Mas… será mesmo?”.
Decidiram conversar. Sem abreviações, sem pressa, com todas as sílabas inteiras. Descobriram que o amor não nasce da pressa, mas do cultivo. Aos poucos, cada palavra recobrava sua densidade, cada gesto seu significado. “Querida” passou a ser mais que apelido – era construção. “Amor” deixou de ser fórmula pronta para se tornar compromisso.E assim, enquanto Pérola e Moinho se perdiam no voo raso das palavras gastas, Maria e José desciam fundo na terra, lançando raízes no silêncio, no cuidado, na paciência de quem sabe que, antes de florescer, o amor precisa aprender a escrever-se.
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Pérola e Moinho
Pérola era nascente: jovem mãe, artista de gestos leves, acostumada a equilibrar sonhos e contas como quem dança sobre uma linha fina.
Moinho era tardio: homem solteiro, mais que sexagenário, com a prata do tempo nos cabelos e um coração que, contra as estatísticas, ainda insistia em girar.
Encontraram-se no labirinto luminoso de um aplicativo ̶ essa praça sem chão onde as pessoas se trombam por acaso e, às vezes, por destino.
Nos primeiros encontros, havia clareza: ela aceitava a ajuda financeira, ele a companhia que lhe aquecia as horas vazias. A troca era dita, sem disfarces; a vida, às vezes, pede pragmatismo.
Mas o coração, desobediente, abriu fenda.
Primeiro, Moinho se deteve no olhar dela nas fotografias ̶ delicado, expressivo, um brilho que parecia dizer mais do que mostrava.
Depois, quando a viu em movimento, entendeu que a beleza também mora na firmeza: músculos bem definidos, magreza de bailarina, feminilidade inteira e mansa. E ali, quase sem perceber, apaixonou-se.
Pérola, porém, era dona da própria fortaleza.
Independência não lhe era apenas gosto: era método de sobrevivência. Resistia aos apelos do romance, sobretudo quando do outro lado havia um homem de outra faixa etária. Guardava distância, regulava o afeto, punha freios onde a vida tentava acelerar.
Moinho, ao contrário, via o sentimento transbordar.
Não sabia explicar por que aquela paixão lhe brotava pelos poros ̶ e aparecia quando ele escovava os dentes, quando lia as manchetes, quando apagava a luz. À noite, a insônia lhe dava o mesmo recado: “é ela”.
Numa dessas madrugadas, o sonho veio com a nitidez das coisas antigas.
Ele se viu moço, subindo num ônibus. À frente, uma jovem acabava de pagar a passagem; a roleta ̶ essa pequena fronteira ̶ girou, e os olhos deles se encontraram. Câmera lenta. Encanto mútuo. Mas o rapaz, tímido, não disse nada. O destino desceu na próxima parada e nunca mais voltou.
Essa lembrança, que doía como cicatriz no tempo, voltou agora com outro rosto. No sonho, era Pérola quem atravessava a roleta e olhava para ele. O instante suspenso, outra vez. Só que, dessa vez, Moinho erguia a mão e dizia “vem”. Não havia moedas, não havia contratos ̶ havia oferta simples de amor. E nela, aceitação.
Ao despertar, Moinho entendeu que os sonhos devolvem ao coração o que a vida negou ̶ mas não sustentam o dia. A claridade é implacável: Pérola não se apaixonara. Não por maldade, mas por fidelidade a si.
E foi nesse ponto que um pensamento de Nietzsche pousou como pedra de rio: “Quem olha por muito tempo para um abismo, o abismo olha de volta.”
Pérola, então, se fez abismo ̶ não porque engolisse, mas porque devolvia. O silêncio e a reserva dela refletiam a solidão dele, como espelho que só sabe dizer: “aqui não”.
Moinho compreendeu: insistir seria viver pendurado num precipício. Reprimir ̶ fingir que não sente ̶ apenas empurraria a paixão para as catacumbas, onde tudo volta em sombras. A saída não era negar; era transmutar.
Decidiu desapaixonar.
Não como quem tranca uma porta com força, mas como quem a fecha com cuidado e olha pelas janelas.
Transformaria a urgência em lembrança, a ferida em palavra, o impulso em caminho. Escrever, caminhar, ouvir velhas canções, abrir espaço para outras conversas ̶ deixar que o vento das velas encontrasse paisagens novas. O moinho não existe para parar: existe para girar.
E Pérola?
Talvez notasse o intervalo entre as mensagens e se perguntasse pelo súbito recato. Talvez lhe fosse conveniente que o desejo dele persistisse ̶ a realidade tem boletos. Talvez um leve ressentimento surgisse diante da retração.
Mas é possível, também, que sentisse o eco. Porque até quem não ama percebe a ausência de ser amado. O afeto recebido, ainda que não correspondido, deixa marcas ̶ sutis, quase invisíveis, mas marcas.
Se o silêncio se tornasse mútuo, seria também uma forma de processamento: cada um à sua maneira, cada qual com seu abismo.
Assim seguiram.
Ele, aprendendo a transmutar: trocar a voragem por ternura, a posse por gratidão, a fome por memória.
Ela, reafirmando fronteiras, talvez descobrindo que o cuidado com a própria liberdade carrega um preço: às vezes, o preço é o vazio depois do brilho.
Ainda assim, uma verdade ficou inteira em Moinho: o amor não vinga na mão fechada.
Quando não há reciprocidade, a dignidade é escolher o próprio chão, recolher o que é seu, cuidar do que permanece. A paixão, tratada com delicadeza, pode virar poesia ̶ e a poesia, como se sabe, é uma forma adulta de esperança.
No fim, Nietzsche não era sentença, mas aviso.
O abismo olhou de volta, e Moinho não tombou: devolveu ao abismo um gesto de lucidez. Não barganhou, não suplicou ao impossível. Apenas girou, outra vez, com o vento que soprava leve, mas poderoso.
E, entre eles, ficou suspenso o que o sonho lhe dera por uma noite: o instante em que tudo poderia ter sido só amor ̶ sem cálculo, sem preço ̶ e que, por não ter sido, precisou aprender a ser silêncio.
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As Marias
As opostas
Os nomes, iguais: Maria. Uma preta, a outra branca. Ainda me causa curiosidade a beligerância mas, lá no fundo, agora que parei para esmiuçar esta estória, acho que sei a explicação.
Moraram, vizinhas, no alto do morro. Para subir ou descer, não tinha jeito: trilhariam o mesmo caminho, se cruzariam, passariam uma na porta da outra. Pois é, ainda suas casas estavam bem de frente àquele caminho que todos precisavam usar para ir de suas casas à rua e vice-versa.
E não se topavam.
Rivalidade
A Maria branca era chamada de “Maria Loura”. Ela não gostava de seus cabelos ruivos e adotou, para o resto de sua vida, a pintura loura. Sei mais dela. A Maria preta era chamada assim mesmo: Maria Preta. Tudo que sei dela me foi contado pela Maria Loura e pelo seu marido, o Zé.
Maria Loura era brava. Se orgulhava de mostrar coragem e disposição. Dizia que “não levava desaforo pra casa”. Saía no braço com quem quer que a enfrentasse, mulher ou homem. Não estava nem aí se ia apanhar ou bater. O sangue lhe fervia e ela partia para o confronto físico. Não parava pra pensar.
Perguntado, Zé contou que, um dia, quando Maria Loura passava em frente à casa de Maria Preta ouviu, dessa, uma indireta ofensiva. Ah, ali mesmo começou o bate-boca.
- Sua isso!
- Sua aquilo!
- Quer ver como te dou na sua cara?
- Vem dar se tu for mulher!
E nesse crescendo de desacatos, as duas se atracaram. O caminho, um declive de escadas irregulares e tortuosas, viu as duas rolarem morro abaixo. Nalgum ponto plano, já com a vizinhança chocada, a Maria Loura achou, não se sabe onde, um pedaço de ferro com o qual acertou um golpe na Maria Preta. Felizmente, neste momento, alguém interviu e separou as duas, antes que fosse tarde e uma tragédia maior acontecesse.
Foi todo mundo parar na delegacia. O Zé teve que se responsabilizar pela Maria Loura, senão ela teria de ficar detida.
Razões
Maria Loura era ciumenta. Não deixava barato qualquer manifestação do Zé em relação a outras mulheres. Dizia logo que ele estava de caso.
Inexplicavelmente ela era racista. Sempre contou que sua mãe era negra e, no entanto, era intolerante com outras pessoas negras. Quando queria ofender, falava da cor da pele, desmerecendo a outra.
Maria Preta desapareceu. Infelizmente não há registro de sua versão dessa estória. Apenas podemos deduzir que, desafiada e ofendida, também não fugiu à luta nem deu as costas à ofensora. Certamente também bateu na Maria Loura, deixou sua marca.
Esta é uma história de ficção. Eventos e personagens não são reais. Sua semelhança com qualquer fato ou pessoa é apenas coincidência. ↩
