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A Navalha de Occam
Foi na academia que a ideia da navalha apareceu. Entre uma série e outra, Tomás contava ao treinador – também amigo e confidente – as novidades sobre Cora. O amigo conhecia boa parte da história e torcia por aquela relação desde o começo. Dizia que as outras mulheres que haviam passado recentemente pela vida de Tomás não tinham como competir com ela. Cora estudara, fizera mestrado, participava de projetos, queria trabalhar, falava de mapas, geoprocessamento e meio ambiente. E havia algo que o treinador percebera antes mesmo de Tomás: ele parecia melhor. Mais animado. Interessado não apenas na beleza de uma mulher, mas no que havia dentro da cabeça dela.
– Essa aí é diferente.
Tomás pensava igual.
Foi então que lhe ocorreu Guilherme de Ockham, o frade franciscano medieval que certamente jamais imaginou sua navalha filosófica sendo usada, séculos depois, para examinar um namoro iniciado num aplicativo. O princípio, despido das discussões filosóficas que vieram depois, servia-lhe perfeitamente: diante de explicações concorrentes, não invente complexidade sem necessidade. Comece pela hipótese mais simples capaz de explicar os fatos.
Cora estava ocupada. Cora procurava emprego. Cora estava cansada. Cora tinha compromissos com a mãe. Cora viajava. Talvez houvesse problemas que ainda não se sentisse à vontade para compartilhar. Talvez aquele fosse apenas o jeito dela. Talvez a diferença de idade exigisse um tempo diferente do dele. Talvez Tomás estivesse romântico demais, confundindo intensidade com reciprocidade.
Talvez. Uma probabilidade extraordinariamente útil para quem não quer cortar coisa alguma.
No começo não havia tantos talvez. Houve um jantar, vinho, conversa e uma viagem de táxi na qual Cora pegou a mão de Tomás, entrelaçou seus dedos nos dele e apoiou a cabeça em seu ombro. Antes de descer, procurou-lhe os lábios. Depois escreveu:
– Foi perfeito. Amei nosso encontro.
Tomás acreditou porque era verdade.
Vieram outros encontros. Restaurantes, chocolates, duas cadernetas sem pauta para a cientista levar a campo, brincadeiras, fotografias, desejo, intimidade. Ele leu o currículo dela com atenção, procurou antigos colegas que talvez pudessem ajudá-la, descobriu concursos, começou a trabalhar numa ideia de negócio para Cora. Quando soube de sua participação num atlas sobre uma pequena cidade fluminense, contou que sua mãe nascera justamente ali.
– Vamos lá comigo?
– Vamos, haha.
Tomás estava construindo. Não percebeu imediatamente que Cora apenas visitava, calculista, a construção.
Talvez um sinal tenha aparecido naquele restaurante em que ele se aproximou para beijá-la e ela desviou o rosto. Mais tarde, no táxi, foi Cora quem segurou sua mão e procurou seus lábios. Pronto. Caso encerrado. O coração é um advogado extraordinário quando já decidiu quem pretende absolver.
Houve também o dia em que Tomás resolveu esclarecer uma questão que começava a incomodá-lo. Cora queria um presente importante para o Dia dos Namorados: precisava de aulas para tirar a carteira de motorista, útil para algumas vagas profissionais que começavam a aparecer. Ele pediu que ligasse. Não queria áudios. Queria ouvir a voz dela.
Ela ligou imediatamente.
Conversaram. Riram. Até que Tomás, ainda com a palavra “namorados” obliterando sua visão, incrédulo, perguntou:
– Somos namorados? Você quer ser minha namorada?
Do outro lado veio uma resposta quase espantada:
– Ué, somos. Eu aceito.
Tomás sentiu um calor, uma energia, uma alegria lhe atravessar todo o corpo. Passara dias tentando compreender algo que, para Cora, aparentemente já estava resolvido.
Nenhum dos dois pensou em fazer uma simples pergunta:
– O que significa namorar para você?
Talvez nela estivesse escondida toda a história.
O último encontro íntimo aconteceu em meados de julho. Vieram viagens sobre as quais Tomás pouco sabia, fins de semana indisponíveis, compromissos, trabalho, mãe, tia, vida. Nada disso provava coisa alguma. Uma pessoa podia visitar a mãe num domingo e dormir na casa da tia no outro. Podia viajar sem apresentar relatório ao namorado. Podia estar cansada. Podia não querer sexo. Podia responder pouco. Podia esquecer uma data.
E Cora esqueceu o aniversário dele.
– Fica bravo não.
Tomás não ficou bravo. Ficou triste. E arranjou mais uma explicação.
Foi na academia, conversando com aquele amigo que tanto torcera pelos dois, que percebeu a quantidade de hipóteses necessárias para sustentar uma conclusão que deveria ser simples.
Afirmar que Cora havia mentido, afirmar que existia outro homem, afirmar que ela o usara ou que nunca sentira nada por ele eram muitas soluções a se considerar, unilateralmente, visto que ela não se mostrava receptível para aprofundar a relação de troca. Tinha que haver uma maneira mais simples de escapar desse labirinto.
Os fatos precisariam bastar.
Eles se desejaram. Houve carinho. Houve prazer. Houve mãos dadas dentro de táxis, restaurantes escolhidos juntos, planos, risadas, apelidos bobos, mapas e possibilidades. Durante algum tempo, duas vidas realmente se tocaram.
Depois uma delas começou a se afastar, só isso. E talvez fosse exatamente isso que Tomás não quisesse aceitar.
Uma traição lhe daria raiva. Uma mentira produziria um culpado. Um segredo explicaria o mistério. Qualquer dessas possibilidades seria, de certa maneira, mais confortável. Mas hoje, olhando atentamente, uma hipótese fria e simples se destacava, silenciosa, sobre a mesa:
Cora já não queria estar com Tomás da maneira como Tomás queria estar com Cora.
Namorados podem passar um mês sem se tocar. Podem viajar sem contar detalhes. Podem esquecer aniversários. Podem atravessar semanas difíceis e desaparecer um pouco dentro da própria vida. Tudo isso era verdade.
Mas Tomás conseguiu responder, para si próprio, aquela pergunta não feita lá do início: o que significa namorar para você? Significa parceria, cumplicidade, cuidado e carinho mútuo. E só conseguia ver um lado adotando práticas condizentes com a condição de namorados.
Na academia, o amigo continuava diante dele. Ao redor, pesos batiam, aparelhos rangiam, uma música qualquer atravessava o salão e pessoas corriam sobre esteiras sem sair do lugar – imagem que, naquele momento, pareceu a Tomás uma metáfora inconvenientemente perfeita.
O treinador perguntou:
– E agora?
Tomás pensou na primeira viagem de táxi. Na pequena mão dentro da sua. Na cabeça de Cora apoiada em seu ombro. No beijo antes de ela descer. Aquilo acontecera. Não precisava transformar uma lembrança bonita numa fraude para compreender o presente.
– Neste momento não consigo te responder, mas vou me dedicar ao assunto ainda nesta manhã, depois te conto.
Tomás percebeu que talvez Guilherme de Ockham tivesse criado, sem jamais imaginar, um instrumento bastante útil para corações teimosos: uma navalha que não serve para cortar pessoas da nossa história, nem para mutilar lembranças até que deixem de doer. Serve para algo mais difícil.
Cortar as explicações que inventamos para continuar vivendo uma história depois que o outro já parou de escrevê-la. Enviou uma última mensagem para Cora:
– Navalha de Occam: troca o namorado.
Três horas depois, ela respondeu:
– Ok.
Contato Cora apagado.
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O Instante em que Roberto Viu
Dias inspiradores me rodeiam. Ainda não sei se alguma coisa mudou no mundo ou se fui eu quem começou a enxergá-lo de outro modo. Há poucos dias, um bem-te-vi pousou diante da minha janela e cantou voltado para mim. Hoje não houve pássaro nem canto. Houve um táxi, uma corrida depois da consulta com minha oftalmologista e um homem chamado Roberto.
Seu ponto fica na Praça Saens Peña, perto do consultório. Começamos falando sobre os bairros do Rio e perguntei se conhecia a rua onde moro. Conhecia muito bem; morador de um bairro vizinho, passa por ali frequentemente quando encerra o trabalho.
— Este caminho é bom porque já vou pra casa almoçar!
Roberto tem sessenta e um anos.
— Um menino! — exclamei.
Ele riu.
Falta pouco mais de um ano para poder requerer aposentadoria, mas pretende trabalhar talvez outros três, para obter um benefício melhor. Aos sessenta e um, aquele “menino” ainda fazia planos. Gostei disso. Há uma juventude que não mora no calendário, mas no hábito de imaginar coisas adiante.
Foi então que a conversa entrou na vida dele.
De origem humilde, Roberto cresceu numa comunidade da Tijuca e começou a trabalhar cedo. Num de seus empregos, viu um companheiro cuidando das máquinas no setor de manutenção. Poderia ter passado por ele sem prestar atenção, como fazemos diante de milhares de coisas todos os dias.
Mas Roberto viu. Talvez toda a história esteja nesse verbo.
Perguntou ao homem o que fazia, como havia chegado àquela função e quanto ganhava. O salário era muito melhor que o seu.
— O que eu tenho que fazer para trabalhar nisso?
O companheiro indicou o caminho: procurar o SENAI e fazer o curso Técnico em Mecânica.
Roberto foi.
Não houve milagre espetacular. Houve um homem diante de uma máquina, outro homem olhando para ele, uma pergunta e uma escola. No entanto, quando sabemos o que aconteceu depois, aquele instante ganha uma luminosidade estranha. Roberto poderia ter olhado sem ver. Poderia ter visto sem perguntar. Poderia ter perguntado e não ter ido.
Mas viu, perguntou e foi.
Estudou Mecânica e, antes mesmo de terminar o curso, já havia sido escolhido por uma grande empresa para trabalhar assim que concluísse a formação. O novo salário e os benefícios mudaram sua vida e a da esposa. Não ficaram ricos. Ficaram possíveis. O futuro ganhou espaço.
Veio uma filha. Depois, uma casa melhor no Grajaú.
Anos mais tarde, outra oportunidade apareceu, agora em um grande laboratório na Zona Sudoeste. Roberto foi novamente. Trabalhou, aprimorou-se, foi promovido, passou a ganhar melhor.
Enquanto o táxi avançava, percebi que ele não me contava apenas uma trajetória profissional. Havia uma transformação correndo silenciosamente através das gerações.
A filha cresceu. Bonita e inteligente, como ele fez questão de dizer com orgulho, graduou-se em Letras pela UFRJ e mudou-se para o Canadá. Trabalha hoje numa atividade ligada à comunicação internacional que Roberto tentou me explicar e que, para nossa diversão, nenhum dos dois conseguiu compreender direito.
Agora ela vai se casar por lá. Roberto nunca viajou ao Canadá. Desta vez, jurou que vai.
Imaginei aquele homem desembarcando num aeroporto estrangeiro, talvez meio perdido entre placas em inglês e francês, procurando a filha entre desconhecidos. E pensei na linha invisível ligando aquele aeroporto canadense a uma oficina na Tijuca, décadas atrás.
Não é a primeira vez que encontro uma história assim. Pessoas nascidas em ambientes pobres, cercadas por circunstâncias que parecem determinar antecipadamente seus destinos, em determinado momento tocam alguma coisa — uma pessoa, um professor, um livro, uma oportunidade — e sua trajetória sofre um pequeno desvio.
Gosto de pensar nesses momentos como tangenciamentos quânticos. Não como física, mas como imagem. Duas trajetórias seguem quase paralelas até que alguma coisa acontece. No início, a diferença parece mínima. Depois vêm os anos, e aqueles poucos centímetros tornam-se quilômetros.
Seria fácil chamar tudo isso de mérito. Mas mérito sozinho não explica Roberto. Houve esforço, estudo e coragem; houve também um trabalhador disposto a ensinar o caminho, uma escola disponível, empresas que reconheceram sua capacidade e oportunidades que surgiram. A vida raramente cabe numa explicação simples.
O que me fascina é o instante anterior a tudo.
Roberto viu.
Talvez a pobreza produza uma crueldade ainda maior que a falta de dinheiro: pode estreitar o horizonte até que alguém deixe de imaginar que certos lugares também lhe pertencem. Naquele dia, diante das máquinas, Roberto enxergou para além da função que ocupava e admitiu para si mesmo uma possibilidade nova.
O restante levou décadas.
SENAI. Técnico. Salário melhor. Grajaú. Filha. UFRJ. Canadá.
Quando contamos, parece uma linha.
Quando se vive, nunca é.
O táxi chegou à minha rua. Roberto foi almoçar e eu subi para casa. Talvez nunca mais nos encontremos. Durante alguns minutos, porém, um desconhecido me mostrou como uma vida inteira pode nascer de um instante aparentemente banal.
Há poucos dias, foi um bem-te-vi. Hoje, foi Roberto. E me ocorreu Shakespeare: “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.”
Aos setenta e um anos, começo a suspeitar que muitas delas nem estejam escondidas entre o céu e a terra.
Talvez estejam bem diante de nós.
Esperando apenas o instante em que a gente veja.
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Aos Setenta e Um, Bem-te-vi
Às cinco da manhã fiz setenta e um.
O tempo, pontual, bateu à porta,
mas não trouxe cobrança nem recibo:
trouxe apenas outro dia.Depois vieram vozes,
palavras queridas,
gente lembrando que eu existo
também do lado de lá de mim.Mas houve dois que não escreveram.
Um beija-flor chegou primeiro,
pequeno lampejo entre as folhas,
como se a manhã tivesse lançado
um pensamento rápido no ar.Depois pousou o bem-te-vi.
Bem diante da janela do meu quarto,
na árvore que tantas vezes contemplei
sem exigir dela outra coisa
senão que continuasse árvore.Deslizei devagar a vidraça.
E ele não fugiu.
Virou-se para mim,
abriu o bico
e cantou.— Bem-te-vi!
Ora, meu pequeno amigo,
eu também te vi.E por alguns segundos
não houve quarto nem rua,
não houve idade, calendário,
passado ou futuro.Houve um homem,
uma árvore,
um pássaro
e a manhã.Talvez tenha sido coincidência.
A razão, sentada num canto,
certamente dirá que sim.Mas aos setenta e um
já aprendi uma coisa
que ela demorou muito a me ensinar:nem tudo aquilo que tem explicação
precisa perder o encanto.O pássaro apenas cantava.
Eu apenas fazia aniversário.E, ainda assim,
naquele instante improvável,
pareceu que a vida se inclinava
um pouquinho em minha direção.Não para dizer
que venci o tempo.Nem para prometer
quanto tempo ainda haverá.Apenas para dizer,
com duas asas, um galho
e três sílabas perfeitas:— Bem-te-vi.
Sorri.
Porque talvez seja essa
uma das mais bonitas maneiras
de chegar aos setenta e um:ainda estar aqui,
ainda abrir a janela,
ainda reparar num pássaro,e, sobretudo,
ainda ser capaz
de acreditar, por alguns segundos,
que ele veio cantar
para mim. -
Na Gaveta, uma Carta
Capítulo I — Mensagem escrita e não enviada
Ele voltou à gaveta não por insistência, mas por honestidade. Havia algo ali que não pedia resposta, apenas forma. Não era saudade no sentido romântico — essa já havia aprendido a se dissipar com o tempo —, mas uma espécie de dívida íntima, daquelas que não se pagam a ninguém, apenas se reconhecem.
Pensou nela como quem pensa em um encontro breve que, sem alarde, altera o curso interno das coisas. Nada havia sido prometido. Nada fora combinado para durar. E, ainda assim, existira entre eles um acordo silencioso: respeito. Era isso que tornava o desvio posterior tão desconfortável à memória.
O que houve depois não lhe pertence inteiramente, mas lhe diz respeito. Outras escolhas, outro incêndio, outra história atravessada por ciúme, invasão e ruído. Ela não deveria ter sido tocada por aquilo. Não era parte da cena. Tornou-se, sem aviso, alvo de uma violência que não deixava marcas visíveis, mas corroía o chão por dentro.
Ele demorou a compreender. Demorou ainda mais a aceitar. Não porque negasse os fatos, mas porque o orgulho costuma vestir a culpa com desculpas elegantes. Quando, enfim, o silêncio dela se impôs — firme, educado, definitivo —, entendeu que ali não havia rejeição. Havia limite.
E limite, ele aprendeu tarde, é uma forma sofisticada de cuidado.
Escreveu muitas versões da carta. Algumas soavam como pedidos disfarçados. Outras, como tentativas de absolvição. Nenhuma lhe pareceu justa. Porque justiça, naquele caso, não estava em ser ouvido, mas em não perturbar.
A carta verdadeira não precisava sair da gaveta. Bastava existir como reconhecimento. Como aprendizado tardio. Como compromisso silencioso de não repetir.
Fechou a gaveta sem ressentimento. O gesto não era de renúncia, mas de maturidade. Algumas histórias não terminam com resposta. Terminam com entendimento.
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Capítulo II — Escolher seguir
Ela seguiu sem olhar para trás. Não por indiferença, mas por discernimento. Havia aprendido cedo que nem toda explicação merece audiência, e que preservar a própria paz é uma forma legítima de coragem.
No começo, tudo fora simples. Conversas leves, curiosidade mútua, uma troca franca, sem promessas exageradas. Havia nele uma atenção diferente, quase cuidadosa, e isso a atraíra. Mas nada ali lhe parecia definitivo — e isso também era bom. A vida ainda se organizava à frente.
Quando o ruído chegou, chegou como chegam as coisas indevidas: sem pedir licença. Mensagens atravessadas, agressividade gratuita, um tom que não combinava com nada do que vivera até então. Ela percebeu rápido que não se tratava dela. Ainda assim, doía. Porque ninguém escolhe ser arrastado para um conflito que não é seu.
Não respondeu com confronto. Nunca foi do seu feitio. Preferiu o afastamento limpo, sem cena, sem revanche. Havia limites que não precisavam ser explicados — apenas respeitados. E quando ele tentou voltar, meses depois, já não era mais o tempo.
Sua vida avançava. Estudo, novos projetos, um afeto em construção. Não havia espaço para revisitar uma história que, embora tivesse sido boa, carregava agora um peso que não lhe pertencia.
Ela desejou, em silêncio, que ele aprendesse. Não por ela, mas por ele. Que entendesse que carinho também se mede pela capacidade de não insistir. Que responsabilidade afetiva não é discurso, é gesto — inclusive o gesto de não escrever.
Se soubesse da carta na gaveta, talvez sorrisse com ternura. Talvez reconhecesse ali um homem diferente daquele que conheceu. Mas não precisaria saber. Algumas transformações cumprem melhor seu destino quando permanecem anônimas.
Ela seguiu.
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Epílogo — A Gaveta é
Há gavetas que não guardam objetos. Guardam decisões.
Aquela carta nunca enviada não representava hesitação, mas escolha. Foi ali, no espaço silencioso entre o querer e o agir, que algo se reorganizou. Não se tratava mais de passado, tampouco de reconciliação. Tratava-se de ética íntima — essa forma discreta de amadurecimento que não pede plateia.
Com o tempo, ele entendeu que escrever também é um gesto de cuidado consigo mesmo. Dar forma ao que não será entregue. Nomear a culpa sem transformá-la em chantagem emocional. Reconhecer o erro sem exigir absolvição externa. Há aprendizados que não precisam ser validados por quem os inspirou.
A gaveta permaneceu fechada. Não para reprimir, mas para simbolizar. Ali ficou a lembrança de que respeito, às vezes, é ausência. E que maturidade não é insistir até ser ouvido, mas saber quando o silêncio é a resposta correta.
Seguir adiante, afinal, não é esquecer. É lembrar sem invadir.
Ele seguiu.
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Enquanto a mãe não chega
“— Tô só esperando minha mãe pra pegar Aninha.”
A frase, dita num tom quase distraído, atravessou o ar da tarde como quem não quer dizer nada — mas dizia tudo. Era uma mãe falando da filha, e era também o mundo falando das mães.
Aninha é pequena, e no seu pequeno coração, o amor é inteiro. Ama a mãe com o corpo todo, com o riso, com as mãos que não param quietas, com o olhar que procura o rosto amado mesmo quando já sabe que ele não está por perto. A mãe, por sua vez, a ama com a urgência dos dias corridos, com o corpo cansado e o coração sempre meio apertado, entre o dever de trabalhar e o desejo de não se ausentar.
A avó entra nessa história como um elo antigo — o porto onde a vida ancora para que o futuro siga navegando. É ela quem acolhe, quem aquece o leite, quem penteia os cabelos de Aninha enquanto a mãe enfrenta a cidade. A avó é a guardiã da pausa, o tempo lento que resta.
E assim, o amor se desdobra: uma mãe que trabalha por amor, uma filha que aprende a esperar por amor, uma avó que sustenta o amor em silêncio.
A frase volta à mente, simples e imensa: “Tô só esperando minha mãe pra pegar Aninha.”
Esperar, pegar, cuidar — três verbos tão pequenos e tão sagrados. É neles que se revela a batalha cotidiana de milhares de mulheres, que constroem o mundo enquanto equilibram no peito a saudade dos filhos. É nelas que repousa a esperança do ser humano no futuro — esse mesmo futuro que Aninha, um dia, também vai querer cuidar com as próprias mãos.
Porque o amor, nascido assim, no meio da luta, se torna a mais pura forma de resistência.
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Costureiro ou Alfaiate?
Zeca Rios varria o chão como quem reza, riscando a calçada de Vila Isabel com o compasso antigo da vassoura. O ferro ondulado da porta ainda ressoava no ouvido, a poeira subia em arabescos, e ele murmurava um rosário profano que só ele entendia.
— Povo folgado… — rosnou, empurrando uma guimba para o bueiro. — Cabeludo de novo com esse saco rasgado… Quem limpa? Zeca limpa. Quem leva bronca da dona da Internet que cai? Zeca. É isso.
A rua respondia com seus ritos: ronco de kombi ao longe, pássaros no fio elétrico e o rádio escondido no fundo da loja, sintonizado no que desse, porque era assim que as coisas eram: “o que desse”. Dona Ronilda já estendia o pano no chão com suas quinquilharias de vida passada; ‘seu’ Antônio, a dez passos, inclinava-se sobre uma panela com a gravidade dos monges. Dos postes, pendiam fios como trepadeiras mortas; alguns, arrancados de noite, voltavam de dia com remendos recentes. Entre um dente e outro da calçada, brotavam os pequenos dramas.
— Ô, Zeca! — latiu uma voz habituada ao asfalto.
Era o Cabeludo, carregando um saco de latinhas. Vinha com o andar inclinado de quem conversa com o chão.
— Teu lixo voou tudo pro meu lado — disparou Zeca, parando a vassoura no ar. — Eu varro, você espalha. Tá de sacanagem?
— Não foi eu, não. Foi o vento da madrugada.
— O vento tem nome de gente agora? — Zeca fechou o cenho. — Se o vento se chama Cabeludo, beleza, eu converso com ele.
— Fica na tua, Zeca. Essa rua não tem dono.
— Tem sim: tem quem varre.
Cabeludo ergueu o queixo, mostrando dentes gastos, e sorriu de lado.
— E tem quem vive. Varrer não é viver.
— Viver é não transformar a calçada em curral — Zeca rebateu, o olho faiscando. — Viver é tomar cuidado com o que é de todos.
O rádio no fundo deu um chiado, quase um riso. Por um instante, os dois se miraram: o alfaiate que não consertava mochilas, o andarilho que remendava dias com latas.
— Quer saber? — Zeca cuspiu ao lado, não por nojo, por pontuação. — Junta isso aí. E sem gracinha. Antes que eu te dê um corretivo.
— Você não me assusta, não — respondeu o Cabeludo, mas a mão já recolhia as latinhas. — Só me cansa.
— A mim também — disse Zeca, numa súbita mansidão que surpreendeu os dois. — A mim também.
Dentro, o ateliê parecia um barco apertado. As máquinas, como motores antigos; os rolos de linha, faróis. Um cartaz na parede, escrito em caneta grossa: NÃO CONSERTO MOCHILA. NÃO CONSERTO MEIA. NÃO REMENDO LENÇOL. NÃO CONFECCIONO. Ao lado, uma calça com a etiqueta de outros tempos: Zeca Rios — alfaiataria de homem, o dourado meio descascado, mas brilhoso o suficiente para bater no olho.
Nádia chegou na porta com perfume de rua e sol de meia-tarde. Trazia um olhar que abria sorriso nas coisas, e Zeca sabia disso — e a rua inteira também. Ficara por muito tempo como sentinela ali, vigiando as curvas do mundo que faziam curvas no homem que amava.— Varreu a esquina toda, capitão do asfalto? — ela provocou.
— Desde o Maracanã até o Bar do Ogum — ele respondeu, guardando a vassoura atrás do balcão. — Hoje eu tô varredor geral.
— Varre pra fora essa cara de onça — Nádia entrou, encostando os dedos na gola da camisa dele, ajeitando como quem afina instrumento. — E vem aqui. Eu trouxe assunto melhor que lixo e fio roubado.
— É mesmo? — Zeca piscou, deixando que a mão de Nádia deslizasse pela lapela. — Ateliê tá fechado pro expediente.
— Fechado pro resto do mundo — ela sorriu — e aberto pra gente.
No corredor estreito, atrás da porta discreta, a respiração deles sempre descobria um ritmo. Nádia falava com língua que sabia do corpo. O jeito apimentado que ela tinha não era vulgaridade — era fome de viver, sem pedir licença. Zeca, no sussurro, se permitia ser menos rocha e mais água.
— O que você vê em mim, Zeca? — ela perguntou um dia, com o rosto colado ao dele, a luz atravessando as ripas.
— Viso de costura — ele respondeu, sério. — Você me ajuda a ver por dentro.
— E você me veste o pensamento — ela riu, num arrepio que subiu pelos braços. — Faz bainha no meu medo e ajuste no meu desejo.
— A gente se aprende. Devagar — disse ele, e tampou a boca dela com um beijo breve, só pra adiar a resposta completa.
Mas a vida tem facas guardadas nas dobras. Nas tardes de ócio, a esquina inventava venenos. O ciúme é um alfaiate que mede errado: qualquer gesto vira roupa apertada.
— Não encosta no balcão do Zeca com esse sorriso, não — Nádia disparou certa manhã, ao ver uma passagem qualquer demorar mais que o necessário. — Aqui tem dona.
— Dona é só no cartório — retrucou dona Ana, do boteco, que viu tudo do outro lado e não gostou do tom. — Aqui, minha filha, todo mundo compra cerveja do mesmo jeito: pagando.
— Eu pago no olhar e ele dá no troco — respondeu Nádia, ferina.
— Abaixa a crista, menina — veio a voz grave de dona Ana, atravessando a rua com a autoridade dos que varrem cedo e fecham tarde. — O balcão é meu, as garrafas são minhas. Lá do outro lado, a paciência também tá cara.
— Paciência eu não peço fiado — Nádia apertou os punhos. — E se alguém me faltar com respeito, não fica barato, não.
— Respeito começa por casa — Ana bateu no próprio peito, o avental marcado de gelo e espuma. — E por falar em casa: para de plantão de ciúme na porta dele. Homem nenhum melhora com cerca, só pula mais alto.
Nádia riu curto, um brilho perigoso no olho.
— Quem pula mais alto sou eu, quando quero. E ninguém me manda recuar.
Comerciante antiga, dona Ana não recuou. A rua ficou em suspenso. Zeca tentou apaziguar, mas a conversa ardia como chapa. Depois, vieram outras brigas: no laticínio, com Miguel, que pediu fila; na venda, por uma nota que não virou troco; na memória, aquelas cenas se multiplicando como manchas em tecido claro.
— Eu não sou costureiro de bagunça — Zeca disse num desses dias, a voz fazendo corte. — Sou alfaiate.
— Alfaiate que não confecciona? — Nádia feriu, sem medir.
— Alfaiate que ajusta o que a vida traz torto — ele devolveu, doído.
A palavra ficou vadiando no ar: ajusta.
De manhã, a vassoura voltava ao ritual. Zeca varria para fora e, sem querer, varria para dentro.
Sou alfaiate? — o pensamento vinha como um costado de onda. — Ou sou varredor de pequenas tragédias? Costuro o quê, se a placa diz que não conserto nada?
O Cabeludo passou de novo, silencioso. Não houve briga; houve um aceno de cabeça. Ao longe, o Bar do Ogum dormia com suas portas fechadas de dia, guardando a música para a noite. Na calçada, dona Ronilda conversava com suas porcelanas. ‘Seu’ Antônio lustrava panelas até que elas se vissem, finalmente, como espelho — e talvez aí estivesse um segredo: polir o comum até virar face.
Zeca encostou no batente, sentiu um latejo no lado direito, uma fisgada antiga acordando feito cão. Já vinha se anunciando: jantar de cachaça em copo americano, almoço de cerveja gelada, café de outro gole. O corpo é um alfaiate cego, mas aprende o contorno pelo erro.
Foi no posto de saúde que a palavra cirrose entrou na oficina como vento frio. Não veio sentença, veio susto. O médico, com uma caneta, desenhou um fígado no papel, como quem risca um molde; falou de tempo, falou de limites, falou de sentir sede e dizer não. Nádia, nessa fase, já não estava. E foi sozinho que Zeca voltou pela rua arborizada, a cabeça pesada como rolo de fazenda.
Se eu morrer agora, ele pensou, quem fecha a loja? Quem varre essa esquina? Quem diz pro Cabeludo que o vento tem nome?
No dia seguinte, a vassoura o esperou de pé. Zeca levantou a porta, respirou fundo, desligou o automático do rádio e deixou o silêncio entrar primeiro. O silêncio, descobriu, também fala; ensina a mãos a dizerem menos.
Foi até a parede. Tirou o cartaz. Rasgou? Não. Dobrou, com uma delicadeza que não usava havia anos, como se dobrasse um paletó de domingo.
Pegou a calça com a etiqueta antiga — Zeca Rios — e a pôs sobre o balcão. A luz encontrou o dourado cansado e quis brincar de novo.
— Não confeccionar não é prometer nunca — ele sussurrou para si. — É só dizer “por enquanto”.
Com um giz, rabiscou as margens do tecido. A mão lembrava: o ponto invisível que segura, o arremate que não aparece, a bainha que impede o desfiar. Não era milagre; era paciência. E a paciência, quem diria, podia ser sóbria.
Quando o Cabeludo apareceu à porta, chegou manso.
— Tô precisando ajustar uma barra — disse, como quem pede desculpas pelo vento.
Zeca mediu a barra. Olhou os pés do homem: sapatos gastos, mas alinhados.
— Sobe no banquinho — disse, num tom neutro que parecia novo. — Vamos cortar só um dedo de céu.
O rádio, agora, tocava baixinho. Dona Ana passou na calçada com uma caixa de garrafas, acenou com a cabeça, um acordo tácito de treguas. Dona Ronilda achou um brinco perdido na memória e sorriu. ‘Seu’ Antônio deu três marteladas de maestro.
Mais tarde, Nádia passou do outro lado da rua. Por um instante, hesitou. Zeca ergueu o queixo, não para desafiar, mas para reconhecer. Eles não se aproximaram; o tempo, às vezes, precisa de distância para assentar o tecido.
Quando o sol caiu enviesado, Zeca colocou um papel novo na parede. Não gritava; informava.
AJUSTES, BAINHAS, REFORMAS.
AQUI, O QUE PODE VOLTA A SERVIR.E, no rodapé, quase uma oração:
ALFAIATE.
A vassoura ficou encostada do lado de dentro, como quem já pertence à casa. Na rua, os fios ainda pendiam, os carros ainda corriam, o vento ainda tinha nome. Mas o copo americano, esse, descansava vazio na prateleira, com a dignidade que se dá a um objeto quando ele perde o ofício e ganha memória.
Zeca apagou a luz, tarde, e saiu. Antes de descer a porta, varreu um resto de folha seca — não por mania, por cuidado. E, ao fim do rito, trouxe a mão ao fígado, num gesto quieto de quem agradece:
— Viver é ajustar — disse. — E eu aprendi o meu ponto.
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Entrelaçamento Rossem-Paris
Era uma noite silenciosa no planeta Rossem. As auroras metálicas riscavam o céu como véus de uma auréola distante. O Primeiro Orador, em meditação profunda, observava o tecido da psico-história pulsar diante de si – equações mentais flutuando como constelações de pensamento.
Em outro ponto do espaço-tempo – Paris, 1868 – uma pena deslizava sobre o papel nas mãos do médium Armand Desliens. As luzes a gás tremeluziam, e um nome surgia na caligrafia fina e firme: Pierre-Paul Didier.
Mas algo fugia à rotina daquela sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. O médium, subitamente, sentiu um frio de estrela distante. As letras no papel começaram a se alterar – não por influência dos mortos, mas por uma força mental que vinha… de muito além.
- Quem ousa projetar-se até o círculo mental da Segunda Fundação? – perguntou o Primeiro Orador, mentalmente.
- Sou Pierre-Paul Didier, um espírito em busca de diálogo, foi a resposta, em voz etérea ressoando como música em água. Venho da Terra, século XIX. Busco compreender a ciência que julga o destino das almas.
O Primeiro Orador silenciou por um instante. Não havia alma em suas equações – apenas probabilidades, tendências, vastas estatísticas humanas.
- A alma é uma hipótese improvável, senhor Didier. Nós trabalhamos com certezas matemáticas. A humanidade, em escala galáctica, é previsível. O indivíduo é ruído; o coletivo, a melodia.
- E o amor, senhor Orador? – replicou Didier com serenidade. O amor não se curva à estatística. Ele é a variável que resiste, o sopro que desvia o cálculo.
O Primeiro Orador analisou a frase com atenção. Em outra mente, ele teria reordenado sinapses para suprimir a dúvida. Mas a consciência daquele espírito não tinha um cérebro a manipular. Era uma mente livre – e, de certo modo, incomputável.
- Amor é um vetor de comportamento. Pode ser previsto, condicionado e utilizado.
- Mas nunca aprisionado.
O vento soprou em Rossem – e, curiosamente, também nas cortinas da sala de Kardec, em Paris. Era como se ambos os mundos partilhassem o mesmo fôlego.
- Nós orientamos as almas humanas, disse Didier. Não para dominá-las, mas para ajudá-las a se reconhecerem como centelhas de um todo. O livre-arbítrio é o laboratório da alma.
- E nós orientamos civilizações inteiras para evitar a barbárie. O livre-arbítrio coletivo precisa de um norteador. Nosso dever é garantir a sobrevivência da espécie.
- Mas a sobrevivência sem moral é apenas adiamento da queda.
- E a moral sem razão é apenas sonho inútil.
Por um instante, ambos ficaram em silêncio. No vazio entre as galáxias e a penumbra de uma sala parisiense, a mente do Orador e o espírito de Didier compreenderam algo: falavam da mesma coisa com linguagens diferentes. Um buscava o equilíbrio pela mente; o outro, pelo coração.
Epílogo
O espírito Didier dirigiu-se ao leitor, através da pena do médium:
“Creio que o progresso do espírito humano não está em suprimir a dúvida pela estatística, mas em alargar o entendimento pela compaixão. A verdadeira ciência do futuro será a que unir a razão à consciência, sem dominá-la. Que a luz do amor se torne método e não milagre.”
Em Rossem, o Primeiro Orador concluiu sua meditação e registrou em seu diário mental:
“Mesmo o mais perfeito cálculo depende da presunção de que o universo é inteligível. Talvez essa suposição seja, em si, um ato de espiritualidade. Admito que o espírito, ainda que invisível à fórmula, possa ser o campo quântico da esperança.”
E, assim, entre o compasso dos números e o canto das almas, a psico-história e o espiritismo se tocaram – por um instante – como duas asas da mesma ideia: a busca humana por sentido no infinito.
Nota do autor
Obra de ficção sem fins lucrativos, inspirada nos universos de Isaac Asimov e Allan Kardec. Os personagens e conceitos originais são aqui reinterpretados em homenagem literária, sem pretensão comercial, como diálogo simbólico entre ciência e espiritualidade.
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Sem ilusões, mas com esperança
I. O desencanto e a lucidez
Naquele grupo de mensagens, uma conversa começou como tantas outras: um desabafo sobre o país. Rafael, homem de verbo firme e olhar cético, disparou:
“Sem ilusões… são todos bandidos. Do PT ao PL. Se não fossem, o Brasil não teria congressos com orçamentos de reinos, nem vereadores do Rio com mais verba que Nova York. O roubo é legalizado. É sistêmico. São quadrilhas, não partidos.”
Era a voz da indignação madura, a de quem já viveu promessas e traições. Mas também era, sem que ele percebesse, a voz de uma ferida coletiva: a do cidadão que ama o país, mas já não sabe onde depositar a fé. O diagnóstico era exato; o remédio, ausente. Porque a lucidez, quando perde a esperança, torna-se deserto.
II. A resposta do amigo
Miguel, que o conhecia bem, respondeu com calma — não com argumentos, mas com afeto e lógica moral:
“Admiro a clareza e a paixão com que defende suas convicções. Sua análise é cirúrgica ao diagnosticar a metástase do sistema. Mas será que a conclusão de que ‘todos são bandidos’ não é, ironicamente, a própria armadilha que o sistema quer que a gente caia? O cinismo paralisa e beneficia quem está no poder. É a desistência em forma de filosofia.”
E continuou, num tom que misturava ternura e firmeza:
“O pulo do gato está no humano, não no sistema. Você, como pai amoroso, não é corrupto. O professor que se doa, o médico que salva, o vizinho que devolve uma carteira — não são. A maioria das pessoas é decente. O problema é que a lógica da quadrilha sequestra as instituições que deveriam servir a essas pessoas. Se a gente acredita que todos são iguais, paramos de exigir, de votar com critério, de participar, de educar. A mudança virá do acúmulo de milhões de gestos decentes.”
Era um apelo à fé civilizadora: acreditar no humano como antídoto do cinismo.
III. A voz da esperança
Marcela, amiga comum, entrou em cena como a brisa que equilibra o fogo:
“Você disse exatamente o que eu gostaria de dizer, Miguel. E, Rafael, não desanime! A gente precisa seguir tentando.”
Foi o toque de leveza que selou o diálogo. Entre a crítica e a esperança, ela lembrou que há uma terceira força que sustenta o mundo: a amizade.
IV. A trincheira e o bambu
Rafael respondeu:
“Sigo na luta e na trincheira, meu amigo. Mas não me iludo com as quadrilhas. Prefiro seguir livre, sem rótulos. Enquanto houver bambu, há flecha. Não defendo esquerda ou direita, defendo o humano.”
E Miguel o apoiou com generosidade:
“É exatamente isso! A luta na trincheira do dia a dia é o que realmente importa. É a liberdade de criticar sem ódio e agir com coerência. Seguimos construindo juntos, cada um com sua perspectiva, mas com o mesmo amor por um país melhor.”
A conversa poderia ter terminado ali — em nobre empate entre lucidez e ternura. Mas Rafael, ainda inquieto, o procurou em privado.
V. O desabafo final
“O lulopetismo assaltou fundos de pensão, e o bolsonarismo seguiu nos roubando. Eles preferem roubar aposentados, crianças, doentes — quem não pode reagir. Difícil é roubar quem tem poder. Não é cinismo, é pragmatismo. Mas isso, meu amigo, são apenas formas de ver o mundo. Sigo atento e na luta, mesmo aqui em Bled!”
E, junto da mensagem, veio uma foto: um lago azul, um castelo ao fundo, montanhas nevadas — um postal de paz em contraste com a guerra interior de quem ainda ama a pátria.
VI. O gesto que encerra
Miguel respondeu com brandura:
“Entendi perfeitamente seu ponto de vista. O importante é que seguimos na luta pelas causas que acreditamos, cada um do seu jeito. E que lugar incrível é esse da foto? Aproveite o descanso merecido, meu amigo. Nos vemos no fim do ano.”
E, com isso, encerrou o debate sem perder a amizade — um gesto raro de sabedoria emocional. Porque há momentos em que a melhor resposta não é o argumento, mas o cuidado. O diálogo não termina porque se chegou a uma conclusão, mas porque o afeto prevaleceu sobre a retórica.
VII. O espelho de Bled
A imagem de Rafael diante do lago é simbólica: um homem cético, contemplando a serenidade das águas. Talvez, sem perceber, ele via ali o reflexo de um Brasil interior — turbulento, belo, contraditório. Um país de paisagens grandiosas e feridas profundas. E, dentro de cada cidadão, o mesmo espelho: a tensão entre indignação e esperança.
VIII. Epílogo – A esperança lúcida
A conversa dos três não foi apenas um debate político. Foi um retrato do que ainda pode nos salvar: o encontro entre lucidez, empatia e amizade. Ninguém convenceu ninguém, mas todos se escutaram. E isso, hoje, já é uma revolução.
“A lucidez sem amor é deserto;
a esperança sem lucidez é delírio.
Mas quando as duas caminham juntas,
nasce o futuro.”FIM
(Todos os nomes e locais foram modificados para preservar a privacidade dos envolvidos.)
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O Tempo e o Desejo
Há homens que envelhecem em silêncio,
carregando o peso dos dias como se fosse culpa.
E há outros que, aos setenta, ainda se espantam
com o perfume de uma jovem mulher,
como se o tempo fosse um rio que não seca,
apenas muda o brilho da correnteza.Não é pecado desejar.
O desejo é o testemunho de que a alma ainda mora no corpo.
Quando um homem maduro se aproxima da juventude,
não é sempre por vaidade – às vezes é por saudade.
Saudade de si mesmo, do riso leve,
da pele que não sabia o nome das rugas,
do instante em que amar não doía.Ele não busca apenas o corpo novo,
mas a lembrança da vida que ainda pulsa.
Busca o espelho onde possa ver o menino
que um dia acreditou ser eterno.Há quem o julgue – sempre haverá.
Mas o julgamento é coisa de quem teme o espelho.
O que há, no fundo, é a necessidade humana
de tocar o que permanece vivo.
E a juventude, quando se oferece em liberdade,
é uma das formas mais puras dessa vida.O erro não está no querer,
mas em não perceber por que se quer.
Se é fuga do próprio tempo, nasce o vazio.
Se é celebração da existência, nasce o amor,
ainda que efêmero, ainda que breve.Porque a alma não tem idade.
E o corpo – ah, o corpo é apenas o instrumento
pelo qual ela ainda canta. -
A Van
Moinho já vivera muitas histórias. Desde que encerrara o último relacionamento, em 2017, perdera o medo de se lançar em experiências inusitadas. A solidão o empurrara para um terreno curioso: mulheres jovens, entre 18 e 25 anos, conhecidas como sugar babies. Vidas frágeis, marcadas por abandonos e urgências, mas que também escondiam risos, sonhos e feridas. Com elas, Moinho aprendeu mais sobre si mesmo do que ousava admitir.
Naquela noite decidiu reunir todas ali, na sua casa. Alugou uma van e anunciou que iriam, todos juntos, a um evento místico numa Tsara Cigana.
O veículo estacionou diante do edifício, todos desceram. Uma a uma, as mulheres foram entrando. O motor ligado, as portas se fechando, o silêncio carregado de tensão. Os olhares cruzavam-se, avaliando, comparando, provocando.
Os primeiros atritos
Rafaela ajeitou a bolsa no colo e, com um sorriso contido, lançou a primeira farpa: Sempre achei graça desse seu riso fácil, Karen. Quem vive sorrindo, às vezes, esconde tristeza.
Karen, altiva, respondeu: Tristeza? Eu aprendi a rir. E você… ainda insiste em ser a escolhida? Boa sorte, querida.
Mais atrás, Chanel tentava manter a compostura, mas Jasmim não se conteve: Vocês se fazem de santinhas, mas todas estamos no mesmo barco: abrir as pernas por grana.
Chanel ergueu o queixo: Pelo menos abrimos com dignidade.
Pocahontas completou, serena: E com o coração aberto, não com língua ferina.
Jasmim riu, debochada: Ah, vão rezar na igreja, hipócritas!
Reflexões afiadas
Enquanto isso, no fundo, Luiza, Lana e Sun Flower falavam baixo.
Luiza: Às vezes penso se ele nos vê como mulheres ou mercadorias.
Lana: Somos espelhos do desejo dele. Quando servimos, brilhamos. Quando não, somos descartadas.
Sun Flower: Nem sempre. Eu vi nele afeto… mas também vi ego.
As três se entreolharam. Um silêncio cúmplice, feminista, pairou no ar.
Ironia e ressentimento
Mais adiante, a Motoqueira lançou um olhar enviesado para Mi: E você, bonequinha, o que trouxe de especial?
Mi, sem perder o salto, respondeu: Beleza, charme… e preço alto.
Motoqueira sorriu de canto: Preço alto não é sinônimo de valor.
Mi retrucou: Nem músculos inflados.
O silêncio que se seguiu pesou mais que grito.
As feridas expostas
Do outro lado, Goiabadinha não poupava veneno contra Janne: Você com essa pose de massagista zen, mas vende o corpo igual a todo mundo.
Janne, gelada: Pelo menos não me embriago em frente às câmeras.
Charlote, que ouvira calada, explodiu: Vocês não sabem o que é amar de verdade. Só sabem brincar de ser mulheres.
Goiabadinha gargalhou: Amar? Você é só drama, ciúme e ameaça.
Janne assentiu: Se Moinho tivesse juízo, nunca teria deixado você entrar.
Charlote cravou: Ele entrou. E foi comigo que sonhou construir algo. Vocês nunca chegaram perto disso.
O clima na van tornou-se sufocante.
Reconhecimentos inesperados
No banco junto à janela, Ninfetinha cochichou para Pérola: Nunca pensei que diria isso, mas admiro a forma como você o marcou.
Pérola sorriu leve: Eu não quis marcar. Só fui eu mesma.
Ninfetinha: Eu jogo, minto, engano… e ele sempre volta. Você não precisa disso.
Pérola: Porque nunca prometi nada. Ele só viu em mim o que buscava.
Ninfetinha: Talvez sejamos as únicas que o entendemos.
Pérola: Talvez. O amor não é posse. E ele aprendeu isso conosco.
A Tsara Cigana
Quando a van parou, o clima de guerra deu lugar ao assombro. O portão da Tsara Cigana se abriu e o perfume do incenso tomou conta de todos. O som de pandeiros e vozes femininas preenchia o ar. Dentro, velas tremeluzentes projetavam sombras dançantes nas paredes.
A cigana já estava incorporada e dançava em torno da fumaça do incenso, que queimava num pote de barro com brasas acesas no chão. Parecia estar esperando aquele grupo porque, quando as viu, chamou-as para perto, sinalizou para que dessem as mãos e balançassem seus corpos, no ritmo da música espanhola, ao som das castanholas, do violão.
Um arrepio percorreu Moinho naquele instante. A fumaça do incenso pareceu se intensificar e se espalhar por toda a Tsara. Todos os demais presentes, organizados ao redor daquele círculo de poderosas mulheres, batiam palmas, acompanhando aquela música hipnótica, acompanhando o esvoaçar da saia da cigana.
A cigana parou, olhou com um sorriso para cada uma das recém chegadas, segurou-lhes a mão, como que energizando-as e levantou sua voz para todos ouvirem. Falou sobre a necessidade de agradecermos por tudo que for vivido, mesmo por aquelas experiências que parecem más que, no entanto, nos ensinam tanto. Falou sobre repassarmos aos outros as lições que aprendemos, as ajudas que recebemos. Falou sobre o papel da mulher, de guiar a humanidade através dos filhos e filhas que trazem ao mundo. Sobre a obrigação do homem de se superar e ser o esteio forte que ajuda as mulheres, tanto parceira, como mãe, como filha, como cidadã. Falou sobre a importância de cuidar das crianças, dar-lhes amor mas também educação e cuidar de sua saúde. Porque o mundo será delas um dia e elas precisam estar preparadas, principalmente com o amor que lhes é dado quando pequenas.
As mulheres, antes afiadas, silenciaram. Cada uma, tocada pelo ambiente sagrado, pela mensagem forte da cigana, encontrou em si algo para dizer.
Rafaela confessou que queria mostrar à filha que a vida era mais que sobrevivência.
Karen percebeu que sua alegria não precisava depender do espumante.
Chanel se viu capaz de não esconder mais quem era.
Jasmim entregou sua fúria ao santo guerreiro.
Pocahontas descobriu que memória verdadeira nasce do afeto.
Luiza reafirmou: nenhuma mulher é mercadoria.
Lana reconheceu: sororidade é prática, não discurso.
Sun Flower entendeu: não era o corpo, mas a alma que merecia ser exposta.
Motoqueira percebeu: ainda podia escolher leveza.
Mi admitiu: não existe cifra que compre a energia do sagrado.
Goiabadinha suavizou: ser contra tudo a afastava de si mesma.
Janne sentiu: seu corpo também precisava de cuidado espiritual.
Charlote murmurou: ainda havia chance de reconstrução.
Ninfetinha confessou: podia jogar para crescer, não só para enganar.
Pérola, por fim, sorriu: a vida é arte, e ela podia dançar sem medo.
Reflexão de Moinho
Moinho observava em silêncio. Não mais como cliente, amante ou aventureiro. Olhava aquelas mulheres — tantas histórias, tantos encontros — e percebia que todas, à sua maneira, haviam deixado nele um traço indelével.
“Não foi o dinheiro que importou, nem o corpo, nem a vaidade. Foi a humanidade escondida atrás de cada olhar, cada gesto, cada raiva e cada carinho. Elas me ensinaram. Cada uma deixou em mim um fragmento de verdade: o cuidado, o riso, a fúria, o desamparo, a coragem. Eu não paguei encontros. Paguei iniciações. E o que recebi de volta foi aprendizado. Hoje vejo que não existem vadias ou santas, mas apenas seres humanos, frágeis e luminosos, buscando um pouco de luz. E eu, que pensava guiar, era o guiado.”
Ao deixar a Tsara, respirou o ar impregnado de mirra e sorriu. Pela primeira vez em muito tempo, não se sentiu dono de nada — apenas aprendiz da vida.
