Aos Setenta e Um, Bem-te-vi

Às cinco da manhã fiz setenta e um.
O tempo, pontual, bateu à porta,
mas não trouxe cobrança nem recibo:
trouxe apenas outro dia.

Depois vieram vozes,
palavras queridas,
gente lembrando que eu existo
também do lado de lá de mim.

Mas houve dois que não escreveram.

Um beija-flor chegou primeiro,
pequeno lampejo entre as folhas,
como se a manhã tivesse lançado
um pensamento rápido no ar.

Depois pousou o bem-te-vi.

Bem diante da janela do meu quarto,
na árvore que tantas vezes contemplei
sem exigir dela outra coisa
senão que continuasse árvore.

Deslizei devagar a vidraça.

E ele não fugiu.

Virou-se para mim,
abriu o bico
e cantou.

— Bem-te-vi!

Ora, meu pequeno amigo,
eu também te vi.

E por alguns segundos
não houve quarto nem rua,
não houve idade, calendário,
passado ou futuro.

Houve um homem,
uma árvore,
um pássaro
e a manhã.

Talvez tenha sido coincidência.

A razão, sentada num canto,
certamente dirá que sim.

Mas aos setenta e um
já aprendi uma coisa
que ela demorou muito a me ensinar:

nem tudo aquilo que tem explicação
precisa perder o encanto.

O pássaro apenas cantava.
Eu apenas fazia aniversário.

E, ainda assim,
naquele instante improvável,
pareceu que a vida se inclinava
um pouquinho em minha direção.

Não para dizer
que venci o tempo.

Nem para prometer
quanto tempo ainda haverá.

Apenas para dizer,
com duas asas, um galho
e três sílabas perfeitas:

— Bem-te-vi.

Sorri.

Porque talvez seja essa
uma das mais bonitas maneiras
de chegar aos setenta e um:

ainda estar aqui,
ainda abrir a janela,
ainda reparar num pássaro,

e, sobretudo,

ainda ser capaz
de acreditar, por alguns segundos,
que ele veio cantar
para mim.

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