Dias inspiradores me rodeiam. Ainda não sei se alguma coisa mudou no mundo ou se fui eu quem começou a enxergá-lo de outro modo. Há poucos dias, um bem-te-vi pousou diante da minha janela e cantou voltado para mim. Hoje não houve pássaro nem canto. Houve um táxi, uma corrida depois da consulta com minha oftalmologista e um homem chamado Roberto.
Seu ponto fica na Praça Saens Peña, perto do consultório. Começamos falando sobre os bairros do Rio e perguntei se conhecia a rua onde moro. Conhecia muito bem; morador de um bairro vizinho, passa por ali frequentemente quando encerra o trabalho.
— Este caminho é bom porque já vou pra casa almoçar!
Roberto tem sessenta e um anos.
— Um menino! — exclamei.
Ele riu.
Falta pouco mais de um ano para poder requerer aposentadoria, mas pretende trabalhar talvez outros três, para obter um benefício melhor. Aos sessenta e um, aquele “menino” ainda fazia planos. Gostei disso. Há uma juventude que não mora no calendário, mas no hábito de imaginar coisas adiante.
Foi então que a conversa entrou na vida dele.
De origem humilde, Roberto cresceu numa comunidade da Tijuca e começou a trabalhar cedo. Num de seus empregos, viu um companheiro cuidando das máquinas no setor de manutenção. Poderia ter passado por ele sem prestar atenção, como fazemos diante de milhares de coisas todos os dias.
Mas Roberto viu. Talvez toda a história esteja nesse verbo.
Perguntou ao homem o que fazia, como havia chegado àquela função e quanto ganhava. O salário era muito melhor que o seu.
— O que eu tenho que fazer para trabalhar nisso?
O companheiro indicou o caminho: procurar o SENAI e fazer o curso Técnico em Mecânica.
Roberto foi.
Não houve milagre espetacular. Houve um homem diante de uma máquina, outro homem olhando para ele, uma pergunta e uma escola. No entanto, quando sabemos o que aconteceu depois, aquele instante ganha uma luminosidade estranha. Roberto poderia ter olhado sem ver. Poderia ter visto sem perguntar. Poderia ter perguntado e não ter ido.
Mas viu, perguntou e foi.
Estudou Mecânica e, antes mesmo de terminar o curso, já havia sido escolhido por uma grande empresa para trabalhar assim que concluísse a formação. O novo salário e os benefícios mudaram sua vida e a da esposa. Não ficaram ricos. Ficaram possíveis. O futuro ganhou espaço.
Veio uma filha. Depois, uma casa melhor no Grajaú.
Anos mais tarde, outra oportunidade apareceu, agora em um grande laboratório na Zona Sudoeste. Roberto foi novamente. Trabalhou, aprimorou-se, foi promovido, passou a ganhar melhor.
Enquanto o táxi avançava, percebi que ele não me contava apenas uma trajetória profissional. Havia uma transformação correndo silenciosamente através das gerações.
A filha cresceu. Bonita e inteligente, como ele fez questão de dizer com orgulho, graduou-se em Letras pela UFRJ e mudou-se para o Canadá. Trabalha hoje numa atividade ligada à comunicação internacional que Roberto tentou me explicar e que, para nossa diversão, nenhum dos dois conseguiu compreender direito.
Agora ela vai se casar por lá. Roberto nunca viajou ao Canadá. Desta vez, jurou que vai.
Imaginei aquele homem desembarcando num aeroporto estrangeiro, talvez meio perdido entre placas em inglês e francês, procurando a filha entre desconhecidos. E pensei na linha invisível ligando aquele aeroporto canadense a uma oficina na Tijuca, décadas atrás.
Não é a primeira vez que encontro uma história assim. Pessoas nascidas em ambientes pobres, cercadas por circunstâncias que parecem determinar antecipadamente seus destinos, em determinado momento tocam alguma coisa — uma pessoa, um professor, um livro, uma oportunidade — e sua trajetória sofre um pequeno desvio.
Gosto de pensar nesses momentos como tangenciamentos quânticos. Não como física, mas como imagem. Duas trajetórias seguem quase paralelas até que alguma coisa acontece. No início, a diferença parece mínima. Depois vêm os anos, e aqueles poucos centímetros tornam-se quilômetros.
Seria fácil chamar tudo isso de mérito. Mas mérito sozinho não explica Roberto. Houve esforço, estudo e coragem; houve também um trabalhador disposto a ensinar o caminho, uma escola disponível, empresas que reconheceram sua capacidade e oportunidades que surgiram. A vida raramente cabe numa explicação simples.
O que me fascina é o instante anterior a tudo.
Roberto viu.
Talvez a pobreza produza uma crueldade ainda maior que a falta de dinheiro: pode estreitar o horizonte até que alguém deixe de imaginar que certos lugares também lhe pertencem. Naquele dia, diante das máquinas, Roberto enxergou para além da função que ocupava e admitiu para si mesmo uma possibilidade nova.
O restante levou décadas.
SENAI. Técnico. Salário melhor. Grajaú. Filha. UFRJ. Canadá.
Quando contamos, parece uma linha.
Quando se vive, nunca é.
O táxi chegou à minha rua. Roberto foi almoçar e eu subi para casa. Talvez nunca mais nos encontremos. Durante alguns minutos, porém, um desconhecido me mostrou como uma vida inteira pode nascer de um instante aparentemente banal.
Há poucos dias, foi um bem-te-vi. Hoje, foi Roberto. E me ocorreu Shakespeare: “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.”
Aos setenta e um anos, começo a suspeitar que muitas delas nem estejam escondidas entre o céu e a terra.
Talvez estejam bem diante de nós.
Esperando apenas o instante em que a gente veja.

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