A Navalha de Occam

Foi na academia que a ideia da navalha apareceu. Entre uma série e outra, Tomás contava ao treinador – também amigo e confidente – as novidades sobre Cora. O amigo conhecia boa parte da história e torcia por aquela relação desde o começo. Dizia que as outras mulheres que haviam passado recentemente pela vida de Tomás não tinham como competir com ela. Cora estudara, fizera mestrado, participava de projetos, queria trabalhar, falava de mapas, geoprocessamento e meio ambiente. E havia algo que o treinador percebera antes mesmo de Tomás: ele parecia melhor. Mais animado. Interessado não apenas na beleza de uma mulher, mas no que havia dentro da cabeça dela.

– Essa aí é diferente.

Tomás pensava igual.

Foi então que lhe ocorreu Guilherme de Ockham, o frade franciscano medieval que certamente jamais imaginou sua navalha filosófica sendo usada, séculos depois, para examinar um namoro iniciado num aplicativo. O princípio, despido das discussões filosóficas que vieram depois, servia-lhe perfeitamente: diante de explicações concorrentes, não invente complexidade sem necessidade. Comece pela hipótese mais simples capaz de explicar os fatos.

Cora estava ocupada. Cora procurava emprego. Cora estava cansada. Cora tinha compromissos com a mãe. Cora viajava. Talvez houvesse problemas que ainda não se sentisse à vontade para compartilhar. Talvez aquele fosse apenas o jeito dela. Talvez a diferença de idade exigisse um tempo diferente do dele. Talvez Tomás estivesse romântico demais, confundindo intensidade com reciprocidade.

Talvez. Uma probabilidade extraordinariamente útil para quem não quer cortar coisa alguma.

No começo não havia tantos talvez. Houve um jantar, vinho, conversa e uma viagem de táxi na qual Cora pegou a mão de Tomás, entrelaçou seus dedos nos dele e apoiou a cabeça em seu ombro. Antes de descer, procurou-lhe os lábios. Depois escreveu:

– Foi perfeito. Amei nosso encontro.

Tomás acreditou porque era verdade.

Vieram outros encontros. Restaurantes, chocolates, duas cadernetas sem pauta para a cientista levar a campo, brincadeiras, fotografias, desejo, intimidade. Ele leu o currículo dela com atenção, procurou antigos colegas que talvez pudessem ajudá-la, descobriu concursos, começou a trabalhar numa ideia de negócio para Cora. Quando soube de sua participação num atlas sobre uma pequena cidade fluminense, contou que sua mãe nascera justamente ali.

– Vamos lá comigo?

– Vamos, haha.

Tomás estava construindo. Não percebeu imediatamente que Cora apenas visitava, calculista, a construção.

Talvez um sinal tenha aparecido naquele restaurante em que ele se aproximou para beijá-la e ela desviou o rosto. Mais tarde, no táxi, foi Cora quem segurou sua mão e procurou seus lábios. Pronto. Caso encerrado. O coração é um advogado extraordinário quando já decidiu quem pretende absolver.

Houve também o dia em que Tomás resolveu esclarecer uma questão que começava a incomodá-lo. Cora queria um presente importante para o Dia dos Namorados: precisava de aulas para tirar a carteira de motorista, útil para algumas vagas profissionais que começavam a aparecer. Ele pediu que ligasse. Não queria áudios. Queria ouvir a voz dela.

Ela ligou imediatamente.

Conversaram. Riram. Até que Tomás, ainda com a palavra “namorados” obliterando sua visão, incrédulo, perguntou:

– Somos namorados? Você quer ser minha namorada?

Do outro lado veio uma resposta quase espantada:

– Ué, somos. Eu aceito.

Tomás sentiu um calor, uma energia, uma alegria lhe atravessar todo o corpo. Passara dias tentando compreender algo que, para Cora, aparentemente já estava resolvido.

Nenhum dos dois pensou em fazer uma simples pergunta:

– O que significa namorar para você?

Talvez nela estivesse escondida toda a história.

O último encontro íntimo aconteceu em meados de julho. Vieram viagens sobre as quais Tomás pouco sabia, fins de semana indisponíveis, compromissos, trabalho, mãe, tia, vida. Nada disso provava coisa alguma. Uma pessoa podia visitar a mãe num domingo e dormir na casa da tia no outro. Podia viajar sem apresentar relatório ao namorado. Podia estar cansada. Podia não querer sexo. Podia responder pouco. Podia esquecer uma data.

E Cora esqueceu o aniversário dele.

– Fica bravo não.

Tomás não ficou bravo. Ficou triste. E arranjou mais uma explicação.

Foi na academia, conversando com aquele amigo que tanto torcera pelos dois, que percebeu a quantidade de hipóteses necessárias para sustentar uma conclusão que deveria ser simples.

Afirmar que Cora havia mentido, afirmar que existia outro homem, afirmar que ela o usara ou que nunca sentira nada por ele eram muitas soluções a se considerar, unilateralmente, visto que ela não se mostrava receptível para aprofundar a relação de troca. Tinha que haver uma maneira mais simples de escapar desse labirinto.

Os fatos precisariam bastar.

Eles se desejaram. Houve carinho. Houve prazer. Houve mãos dadas dentro de táxis, restaurantes escolhidos juntos, planos, risadas, apelidos bobos, mapas e possibilidades. Durante algum tempo, duas vidas realmente se tocaram.

Depois uma delas começou a se afastar, só isso. E talvez fosse exatamente isso que Tomás não quisesse aceitar.

Uma traição lhe daria raiva. Uma mentira produziria um culpado. Um segredo explicaria o mistério. Qualquer dessas possibilidades seria, de certa maneira, mais confortável. Mas hoje, olhando atentamente, uma hipótese fria e simples se destacava, silenciosa, sobre a mesa:

Cora já não queria estar com Tomás da maneira como Tomás queria estar com Cora.

Namorados podem passar um mês sem se tocar. Podem viajar sem contar detalhes. Podem esquecer aniversários. Podem atravessar semanas difíceis e desaparecer um pouco dentro da própria vida. Tudo isso era verdade.

Mas Tomás conseguiu responder, para si próprio, aquela pergunta não feita lá do início: o que significa namorar para você? Significa parceria, cumplicidade, cuidado e carinho mútuo. E só conseguia ver um lado adotando práticas condizentes com a condição de namorados.

Na academia, o amigo continuava diante dele. Ao redor, pesos batiam, aparelhos rangiam, uma música qualquer atravessava o salão e pessoas corriam sobre esteiras sem sair do lugar – imagem que, naquele momento, pareceu a Tomás uma metáfora inconvenientemente perfeita.

O treinador perguntou:

– E agora?

Tomás pensou na primeira viagem de táxi. Na pequena mão dentro da sua. Na cabeça de Cora apoiada em seu ombro. No beijo antes de ela descer. Aquilo acontecera. Não precisava transformar uma lembrança bonita numa fraude para compreender o presente.

– Neste momento não consigo te responder, mas vou me dedicar ao assunto ainda nesta manhã, depois te conto.

Tomás percebeu que talvez Guilherme de Ockham tivesse criado, sem jamais imaginar, um instrumento bastante útil para corações teimosos: uma navalha que não serve para cortar pessoas da nossa história, nem para mutilar lembranças até que deixem de doer. Serve para algo mais difícil.

Cortar as explicações que inventamos para continuar vivendo uma história depois que o outro já parou de escrevê-la. Enviou uma última mensagem para Cora:

– Navalha de Occam: troca o namorado.

Três horas depois, ela respondeu:

– Ok.

Contato Cora apagado.

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