Tomás ligou.
Pensara no telefone fixo, mas desistiu da pequena covardia antes de cometê-la. Chamou do celular, duas vezes, até cair na caixa postal. Não deixou mensagem. Depois de semanas examinando um “Ok” como quem procura vestígios numa cena de crime, pelo menos fizera alguma coisa aprendida da Física: nada acontece até que algo se mova.
Pouco depois, Cora apareceu no WhatsApp por causa de um livro que ainda estava com ela. Tomás explicou que não telefonara pelo livro. Quando ela perguntou o motivo, resolveu não inventar.
— Ainda não consegui tirar você da cabeça.
A resposta veio depressa.
— Então quer me ver amanhã?
No dia seguinte, Cora entrou na casa dele sem a cerimônia de antigamente. Tirou os sapatos, abriu a geladeira, encontrou os talheres. Comeram, ouviram música e deram fim a uma garrafa de Pinot Noir, tarefa em que ela mostrou uma competência que Tomás preferiu não desafiar.
Em algum momento ele perguntou como ela imaginava um relacionamento sério. Quando a conversa chegou a casamento, família e vidas misturadas, Cora deixou claro que não era aquilo que procurava. Tomás esperava sentir alguma decepção. Sentiu alívio.
Talvez tivesse passado tempo demais confundindo profundidade com permanência. Gostava da inteligência dela, das conversas, dos mapas, das coincidências que os aproximaram. Gostava também da mulher que falava pouco durante o dia e parecia esquecer toda economia quando se entregava aos carinhos. Cora não precisava virar esposa, família ou projeto de futuro para que aquilo tivesse valor.
Outra amizade, retomada algum tempo antes, ajudara Tomás a compreender isso. Era uma relação diferente, mais franca sobre certas necessidades e muito menos preocupada com os nomes das coisas. Pela primeira vez ele percebeu que podia gostar profundamente de alguém sem transformar afeto em posse.
Com Cora ainda havia zonas de sombra. Ela aceitava cuidado e conforto com naturalidade, embora raramente pedisse alguma coisa de maneira direta. Tomás suspeitava que certas necessidades fossem deixadas para que ele próprio percebesse. Antigamente teria transformado a suspeita em investigação. Agora, observava.
Também começava a admitir uma coisa sobre si mesmo: gostava de proporcionar. Um jantar, um presente, alguma facilidade, uma ajuda quando podia. O problema nunca estivera necessariamente em dar. Estaria em imaginar que, por ter dado, adquirira algum direito sobre quem recebia.
Dinheiro podia comprar conforto. Não podia comprar vontade de voltar.
Cora continuava viajando. Quando dizia que estava fora a trabalho, ainda surgia nele uma sobrancelha desconfiada. Mas Tomás aprendera com outras amizades que não precisava conhecer todos os bastidores de uma vida para aceitar honestamente a parte dela que encontrava a sua.
Dias depois, disse a Cora que queria vê-la e ofereceu três dias possíveis. Ela escolheu o primeiro, explicou que estaria viajando e que voltaria pela manhã. Três mensagens seguidas — quase um ensaio para quem já reclamara da capacidade industrial de Tomás para falar.
Então ele pensou: a Navalha de Occam não estava errada. Foi ele, num daqueles momentos em que o impulso embaça a razão, que tentou usar o conceito para remover Cora de sua vida.
Talvez devesse aplicar a técnica em outra coisa: na necessidade de explicar tudo, de possuir o que amava, de transformar carinho em promessa e toda relação importante em destino.
Cora continuava difícil de decifrar. Só que Tomás já não tinha tanta pressa.
Ela voltou. Estava bom assim.

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